De março a julho de 2017 estive ‘em residência’ no CEM-Centro em Movimento, de Lisboa. Acompanhei as práticas e atividades da FIA – Formação Intensiva Acompanhada, participei de discussões e do grupo de estudos Petiscos Para Demoradores, e fiz parte do grupo de artistas e outros profissionais que se somaram para realizar o Pedras17, um ‘Festival’ que aconteceu pelas ruas de Lisboa dilatando estas mesmas práticas com algumas proposições específicas ‘para compartilhar’, que neste ano tiveram o nome de Manual de Estar. Não seria possível pensar que alguém que ali esteve não tivesse contribuído para que tudo o que se fez existisse, mas tão pouco seria possível não agradecer especialmente a Sofia, Margarida, Peter e Cristina, pilares dessas procuras de utopias que possamos praticar enquanto somos mundos.

 

Os escritos que seguem são um compartilhamento pessoal sobre a experiência e se baseiam em algumas destas práticas, além da performance coletiva proposta por mim e realizada por todos seus participantes no Pedras, chamada Cozinha Parangolé Lisboa.

 

Sorrisos e cores cruzam-se à minha frente. A malta se entrega ao movimento. Um vento faz voar os panos e plásticos. ‘A alegria é revolucionária’. Um elefante incomoda muita gente… e também alegra a muitos mais. Estamos descendo o Caracol da Graça criando nossos próprios passos, arriscando uma banalidade, transformando o espaço em qualquer coisa de possível. As pedras do chão. Aqui e ali alguns legumes, ou frutas. Penso nas referências óbvias – além de Oiticica, que conscientemente evoquei já no convite e no título da coisa, logo depois de ver a Calcanhoto falar do Pamplona em Coimbra. A banana na cabeça de Sara era uma releitura de Carmen Miranda ou o chifre de um rinoceronte da Disney? Aqueles alhos franceses (alho-porrós) saíram mesmo a passear? O beldroegas que Álvaro serve fresquinho. Já não vi isso antes? Nico em sua capa de super-alguém, meio banda desenhada, meio praia, evolui na avenida, com Renata que é outro super-herói indecifrável. Entidades de candomblé, há muitas: uma Júlia Oxum dourada e azul, Iansã nos tules vermelhos de Clara e o Gui com qualquer coisa de Oxóssi. A câmera de Inês dança junto à courgette em primeiro plano, Gonçalo experimenta as delícias de usar um sari, enquanto capta o som ambiente, o sol aparece e desaparece entre os prédios e ruas que se mostram, reabertas pela trupe que as cria naquele mesmo instante. Puro Glauber.

 

Há algo disso em todas as manifestações corporais que podem carregar o apelido de arte: todas estão a criar o espaço.

 

E/Ou:

 

Estamos caminhando muito lentamente no Rocio. Eu me lembro de pessoas de preto e também de jovens escolares e, claro, sempre turistas e mais turistas. O melhor da experiência é quando ela nos carrega, suspende e só depois, em algum momento posterior, voltamos a integrar tudo nesses frascos que nos definem socialmente e que coincidem com o peso de tocar o chão com os pés. Aquela desaceleração foi-me entrando na medula e depois eu já não sabia se estava a frente da loja-mundo-mágico-das-sardinhas-portuguesas ou se aqueles tetos apontando para o Castelo São Jorge não eram minha imaginação de algum outro filme já filmado por um autor francês. Ou apenas espaço desdobrado, abrindo frestas em suas dimensões que sempre estão ali e que na maioria do tempo não vemos.

 

A experiência alargada de uma consciência que é corpo, desde sempre, e que deve ter o poder de fazer explodir a cidade, quem sabe. Depois cada qual que resolva o que há de fazer com aquilo. Alguns a pensar em palco, outros em crianças, outros na paisagem, outros nas contas bancarias, outras na cama dos amantes.

 

E/Ou:

 

Estamos demorando por aí, São Paulo, Gaivotas, falando com a esplêndida Isabelinha. Mas ela não existe sem seu entorno e muito menos sem todos os ‘entres’ aos borbotões que sua risada enseja. Então é também o João, o outro que veio tomar uma, a obra na rua, o claro escuro da Tasca, o calor e a água fresca que tomamos. Estar coletivamente em demora. Passar horas caminhando daqui para ali em uma mistura de inutilidade ativa e uma variedade incrível de possíveis e imaginários. Na outra câmera o outro João fica tímido mas a malta não lhe dá trégua e a equipe cinematográfica quase não cabe no café, quase não cabe na rua, transborda-se na fonte que já não jorra e vira batucada, vaia e risada.

 

A prática do comum é mesmo isso: prática; o comum. Os outros ingredientes variam. Sofia é um peixe dentro d’água.

 

E/Ou:

 

Que força ou fraqueza se move lenta em linha na praça do Comércio? Que tensão é esta? É bem vinda ou sintoma de problema? Uma força lança à frente, outra resiste, uma linha atrai aos lados criando um corpo-linha feito de um monte de gente, que se move atravessando vários outros corpos, individuais ou coletivos, alguns presentes, nos turistas e ocupantes da praça àquela hora; outros, passados, em muitas e muitas camadas, incluindo os mortos do ‘terramoto-tsunami’ e o tempo microscópico que se expande mais uma vez avassaladoramente, ou seja, o de uma bomba nuclear. Depois daquele dia, na palavra, queixas de abandono, solidões ressentiam-se do vácuo que a bomba deixa após passar e parecer que não aconteceu.

 

Mas que exemplo melhor para falar do ‘entre’ que Sofia percebe, tornando-o espacial, concreto? Mova-se com um barulho desses.

 

E/Ou:

 

Entre tapumes e areia de obra, pouca sombra e calor, a secura das calçadas em que passam pessoas – algumas delas definimos com o genérico de ‘turistas’ – vão-se instalando pequenos triângulos que se movem e dançam, sim, aquilo é certamente dançar, mas o que fazem ali? Levar as práticas para as ruas encontra uma miríade de sentidos em formatos e cores variados. Neste, próximo à Casa dos Bicos, Alfândega, quase nos vejo a gritar aos transeuntes, enfiando-lhes dança nas fuças: ‘olhem, imbecis, também podemos ser violentos!’; ‘o que creem, que apenas sua estúpida indiferença pode violar a realidade?’ Não só ela.

 

A dança segue, se move, aquilo que se ergueu se dissolve, tudo volta a ser água, movimento, procissão, passeio de criança, e quando se vê está novamente ali, em outro sítio, que desta vez é praça e muitos cruzamentos em tempos diversos, e ainda é calor (disputam-se as poucas sombras que há) e desta vez a tensão é de outra natureza, ela constrói espirais que sobem e zás, novamente se dissolvem, tudo mais rápido, até que alguém que já estava antes na rua coloca música e transforma aquilo em festa-rave um meio dia qualquer em frente à Igreja de São Domingos. A tese de sociologia está lá. A dança conceitual; a crítica; o coro; a preguiça; a maravilha. Dança Moenda, dança trabalho, dança por que é de dançar.

 

Quem há de testemunhar tudo o que se move no mundo, inclusive estes momentinhos tão carregados de potencia vital e acaso? O que é ‘dar a ver’? Quem mais viu aquilo?

 

E/Ou:

 

As Escadinhas de São Cristóvão já eram um must quando resolvemos adotá-las junto com Julia e Sara. Declaramos a posse do lugar, e passamos a redigir a nova constituição. Mas como os países já não são os mesmos, a república foi constantemente invadida por outros sonhos e haveres e tivemos que seguir reescrevendo-a. A umas tantas esquecemos de fazer isso, pois éramos tantos sentados nos degraus a ler em um silêncio próprio de quem está ocupado pelas coisas certas enquanto a vida transcorre, que o lugar voltou a ser um campo cheio das paisagens do Nicolau, que a tudo observava.

 

Leituras de um mundo há muito esquecido. Margarida e Sofia muito à vontade.

 

E/Ou:

 

A mesma Margarida convenceu a lua a ficar cheia e saímos todos a escrever pelos lados da Adiça, em qualquer Alfama superior. Ainda me sinto estupefato pela beleza rural, medieval e celestial daquelas palavras coletivas. Lembrei-me das práticas de sonho que fazia muito tempo atrás acompanhado de outros delirantes que, afinal, são todos tão parecidos e diferentes.

 

Cronópios de todo o mundo, uni-vos! Então a prática da escrita pode ser, de fato, dança, corpo, poiesis e política. E se não cheirava a jasmim, deve ter sido minha imaginação.

 

E/Ou

 

O Largo do Correio-mor também foi palco de danças. Nicolau adentrando o espaço, em muitas dimensões, enquanto a cidade invadia a paisagem com suas obras, turistas, ruídos, sombras, moradores de rua, seguranças de espaço cultural, automóveis em busca de estacionamento, ventos de outros lugares e nós mesmos a habitá-la em dança. Enigma.

 

O que significa dançar no espaço público? O que significa ‘público’? O campo do sensível é muito mais do que uma cidade, um filme de ficção científica ou uma lembrança em atualização. Mensagens para se lançar em garrafas pelos correios-mor do mundo…

 

 

E/Ou

 

Seguimos trajetos sonoros, táteis, visuais, cheirosos e saborosos. Os sentidos todos ali a funcionar, abrindo as dimensões que o exercício convida e solicita. A experiência é mais perene. Alonga-se como cada músculo em um cuidadoso aquecimento. A experiência do sensível é assombrosa, não por que revele algo que não se sabia, mas o que sempre esteve ali. É preciso aceitar a impensável hipótese de que tudo de fato seja mesmo um filme fantástico a se descortinar; e nós, os espectadores improváveis de tamanha beleza.

 

Eu gosto de olhar o mundo.

marcos

 

Advertisements