um dia de acolhimento das condições do tempo e constelações. começo a acompanhar o que se inaugura e continua. pelas costas. as falanges tecem conversas e me atraem a beirar outros contornos enquanto os aromas do café e da melancia (de)cantam por aberturas sutis. folhas e fios de cabelo também precipitam na gravidade da terra. está amamentando? sigo com o caráter afirmativo das perguntas. a luz convida a habitar a rua de laranjeiras… lá fora, a memória dos protestos ainda ecoa metálica em direção ao palácio com sombra de casa- herança de um inventário jamais concluído. o viaduto avança na paisagem, violentamente, como os policiais que rondam a praça e os corpos. como sustentar um corpo diante do olhar mordaz? quais eram mesmo as perguntas? explorando a beira, ali, me vi. sustentei. sustentei… paralisei.

isso. desejo dar olho ao gesto colonizador, expor sua existência, questioná-lo… como dar condições para criar outros gestos a partir daquilo que é imperativo ao corpo? a praça está quase vazia. crianças, idosos, vagabundos, depressivos, plantas, cachorros, o teatro de arena. resistem. seria uma armadilha visual? como existir para além do resistir? parece que as realidades e as perguntas se formam a depender do ângulo de incidência da luz. venho desejando afastar das temperaturas extremas das polaridades… mas como afirmar posições, perguntas, sem se fechar numa lógica de captura? inclino para aproximar o chão.

sou abraçada pela praça com nome de poeta e me distraio numa ocupação quase triste, quase romântica. acompanho seres miúdos e imagino a grandeza de seus lares e existências. busco outros vestígios de animal, árvore, de gente, água… escorrego com o carvão e escapo pela vertical quando vejo um borrão na letra (i) quase apagada, irreconhecível: “a inclinação contra(i) meus desejos”. será que as perguntas são as mesmas aqui? estou a tatear inclinações. cambaleio entre troncos e sentidos como o simbolista duque costa? danço para rasgar o tempo e o espaço, como escapes da guerra. tento permanecer em meio à rarefação e relevo das folhas caramelizados pelo crepúsculo. a luz já estala veloz entre os vãos do viaduto. crescente e perecível. alimenta escrita entre vestígios de tinhorão, chão, mãos e elos. toco o olhar e danço delicadamente com aline e o véu de folhagens. as digitais do cão também estavam no papel. vocês são arquitetas? o lápis parece suave demais para determinadas superfícies.

como perceber a umidade mais próxima do chão? o negrume do carvão ficou nas falanges e travessias. há também rios por debaixo do asfalto. eles fluem e rompem fronteiras. riscam em ritual como os grafismos de ócio e vontade a escorrerem pela praça como veios de afeto, delirando o dentro e o fora da praça, reinventando lugares de subversão e marginalidade. nos brinquedos, aline, tamara, bruna, raquel e lídia se revezam nos parangolés de ventania. elas desalinham as formigas sem bulir os vestígios por debaixo- um mover sustentável. vento e chuva passam sem apagar presenças da terra. É preciso dosar a umidade para se manter entre encontros, rios e sombras.

thaís chilinque

corpos que escrevem sobre o chão //
Praça Duque Costa- Rio de Janeiros

Programação do Festival Pedras’17
programação intergalática – Lisboa – Rio – São Paulo – Belo Horizonte – Curitiba

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