Escrevercom na rua foi um exercício de delicadeza… De suavidade, do tocar a superfície da pele, do tatear, do encostar, do não saber, do não julgar, do intuir, do brincar, do estar lado a lado com a mulher do cachorro, com o balanço do parquinho, com as pessoas de outros lugares em simultâneo, com a ponta da caneta.

O respiro que escrever no chão, lado a lado – proximidade e distância- proporciona aos meus pulmões é revigorante… um tempo outro que se força com rigor e suavidade. E1566B4A-41D2-4A72-B2FE-CBDD6B9A29A7

Uma prática na sintonia daquilo que escapa ao olhar desatento, que ressoa esquiva como uma imagem subliminar, um vulto que se esgueira pelos olhos, um ato que reverbera em sonho, em lembrança, em sutil estado de presença.

A escrita despudorou o movimento, trouxe um gesto possível pro espaço praça, peso do próprio corpo contra o corpo da árvore, balanço que balança o peso do corpo que quer mais, bunda que senta em vários chãos, costas que marcam o papel, sola do sapato que espalha os vestígios da dança.

A escrita ridiculariza o medo que se precipita em nossos corpos, ora por ameaças simbólicas, ora explícitas. Essa escrita achincalha o medo como projeto maior de manipulação dos corpos citadinos.

Quando os corpos escrevem lado a lado no chão eles forjam um espaço heterotópico, um espaço em que as relações redefinem posicionamentos aparentemente irredutíveis e que parecem, só parecem, absolutamente impossíveis de ser sobrepostos, mas não são… A heterotopia emerge na mistura do espaço público com o privado, na mistura do espaço próprio para a dança com o território de circulação da cidade, na transformação do chão inóspito da praça em um possível terreno de re-existência, de ressignificação da existência que essa prática nos convida…

Delicadas ficções, devaneios de caneta no papel irrompem:
E se a praça for um oásis no meio do fluxo compulsório e ininterrupto da cidade?

E se a escrita colapsar tempo e espaço e transformar Lisboa, Belo Horizonte e São Paulo em aqui e agora?

E se os corpos que ali escrevem, escutam e movem declinarem o protagonismo do olhar e se tornarem translúcidos ao mundo?
E se o corpo deixar ver o mundo, não reivindicar o centro do olhar pra si, mas deixar ver o mundo em si atravessado…

E se a dança deixar ver a rua, a praça, a cidade?
E se a dança desobrigar o olhar de toda direção e o corpo de todo protagonismo e a palavra de toda ideia?

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E se os carros desacelerarem até parar e as pessoas levantarem de seus escritórios e saírem às ruas e cheirarem o ar… se olharem e re-pararem?

E se esse tempo de escrever perdurar… sobre minhas próprias pernas, sobre o balanço do parquinho, sobre a roda a bicicleta… espalhando na duração essa calma árvore, essa calma raiz, essa calma noite?

E se essas delicadezas não forem só ficções?

Lidia.

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corpos que escrevem sobre o chão //
Praça Duque Costa- Rio de Janeiros

Programação do Festival Pedras’17
programação intergalática – Lisboa – Rio – São Paulo – Belo Horizonte – Curitiba

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