Já há algum tempo que se percebia que Lisboa não estava a conseguir evitar render-se ao apelo da modernização e ‘revitalização’ urbanas por via do turismo e da gentrificação. Porque motivo seria diferente de tantas outras cidades europeias que já seguiram esse caminho? Na minha ingenuidade de alfacinha de gema, achei que Lisboa ia ser diferente porque sempre soube resistir às modas e aos ‘trends’ importados das metrópoles mais cosmopolitas e chiques do mundo ocidental, apesar das cedências novo-ricas que sempre existiram. No seu devir singular de cidade híbrida mas castiça, parecia ter criado um corpo permeável e maleável mas que mantinha um tónus e vibração próprios que não se deixavam moldar pelas tentações da globalização massificadora e uniformizadora. Mas os anos da crise económica deixaram a sua marca e a perspectiva mais recente da retoma do crescimento conduziu a um novo ciclo de euforia empreendedora e mercantilista que usou o turismo e a confiança consumista como tábuas de salvação. E tivemos a multiplicação das lojas de souvenirs, de hostels e de ‘alojamentos locais’, de restaurantes de comida ‘typical’ e da ‘not so typical’, dos tuktuk, sedgways e hippotrips, dos guindastes e obras municipais. E depois seguiu-se a profusão dos bares-, restaurantes- e lojas-conceito, da obsessão com os ‘chefs’, as lojas ‘gourmet’ e os espaços ‘lounge’, dos condomínios de luxo e dos ‘boutique hotels’, dos ‘co-work’, ‘fablabs’ e ‘hubs’ criativos, dos toldos pretos com letras brancas, do aburguesamento dos mercados, da higienização clínica dalguns espaços públicos, da substituição da calçada portuguesa e, por fim, a escalada imparável da especulação imobiliária com a consequente expulsão de habitantes dos bairros populares e encerramento de lojas históricas. O resultado começava assim a vislumbrar-se e correspondia cada vez mais fielmente ao desiderato do vereador do urbanismo da CML: substituir os habitantes de Lisboa por ‘city users’… Entre os produtos aberrantes de toda esta voragem de criação-destruição, destaco a metamorfose do café da Polux em mais um conceito gastronómico com chef incluído, a ex-futura residência estudantil no Intendente que será afinal um condomínio de luxo ou uma das mais recentes obras transgénicas da modernaça hotelaria multinacional que foi baptizada com o bonito nome de ‘Beautique WC Hotel’!… O texto de entrada do site da empresa hoteleira não engana ninguém – estão lá todas as ‘keywords’ incontornáveis: ‘experience’, ‘soul’, ‘sustainable’, ‘authenticity’, ‘balance’!…

http://www.thebeautiquehotels.com/the-beautique-hotels-lisboa

Não podia deixar de destacar uma outra pérola da nova escatologia urbana, bem debaixo do nosso nariz ali, no Terreiro do Paço, e que se intitula modestamente ‘The sexiest WC on Earth’. Segundo a nota de imprensa aquando da inauguração, trata-se de “uma experiência sensorial estimulante”. Nada menos do que um novo conceito de casa de banho sexy-chique…

http://www.meiosepublicidade.pt/2012/06/renova-monta-wc-mais-sexy-do-mundo-no-terreiro-do-paco/

Um dia destes seguia à minha frente um tuktuk com um letreiro que dizia ‘Lisbon has no limits’!… Foi um momento de autêntica epifania.

 

Álvaro

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