No Largo do Correio-Mor, um homem de olhos fechados fez de caixas de cartão espalmadas a sua cama. Abandonado às moscas pousadas numa ligadura da perna, não repara na minha presença. Está deitado por baixo das árvores perto da fonte.

É Agosto e os jacarandás estão turgidos de folhas. Têm a intensidade de uma segunda floração, que oferece uma sombra densa ao largo, tão diferente das manchas esparsas que me protegiam do Sol quando dancei lá em Junho e Julho. Mas as ervinhas que cresciam verdes entre as pedras da calçada estão agora secas. Dizem-me que o Verão intenso também chega à cidade, não é uma realidade distante das aldeias sem água do Alentejo e dos incêndios que percorrem o campo. Relembram-me que a passagem do tempo atravessa tudo, não apenas a realidade que escolhemos observar.

É Agosto e voltei pela primeira vez ao Largo do Correio-Mor desde que apresentei o Dentro, no Pedras’17. E com toda a estranheza que se me apresenta, com todo o movimento simples, único, contínuo, que o largo oferece, ele foi mais meu naqueles minutos do que nos dias em que dancei lá. Como se o hábito de o habitar só ganhasse espessura agora. Como se algo de nós ficasse para trás, nos lugares onde permanecemos no passado.

Os turistas passam, há movimento no armazém de obras que tomou parte do largo, os sinos tocam.

Um homem sentado num pilar de um banco desaparecido dá comida aos pombos.

Há palavras novas, escritas na rede que tapa as grades altas do armazém. Dizem que se vive pior em Lisboa. Expressam violência, desespero.

Os olhos passeiam-se por tudo isto. Reconhecem o paredão, as folhas, a calçada, as obras, os edifícios, o movimento. As memórias conversam com o que vibra no agora, actualizando as paisagens, permitindo ao passar do tempo ser mais um elemento na potência do novo. Uma quarta dimensão da escuta.

A luz é outra. A fonte é outra. O Largo é outro. Eu sou outro.

Está lá tudo para recomeçar a dança.

nico

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