Há uns anos apanhava-me frequentemente a dizer: as coisas não são sobre as coisas… talvez seja em parte esta sensação do constante deslizar, da descoincidência que sempre experimento quando tento apreender um acontecimento. Algo sempre escapa.

Atravessar a programação do pedras parece-me ser sobre o atravessar desse constante algo que sempre escapa, e sobre criar formas de estar que não querem tentar apanhar, mas antes sentir as distâncias. As distâncias entre o que está a acontecer e o que está a acontecer, nos múltiplos aconteceres que se realinham na sua própria necessidade de existir, no seu encontro comigo e no meu desejo de que existam, só para dizer algumas distâncias que experimentei.

Experimentar a convivência entre coisas sem ser a partir das bordas de cada coisa, é já essa sensação de atravessar e ser atravessada por um acontecimento e também de sentir as distâncias entre o que está a ser e o que escapa enquanto está sendo. Interrogo-me sobre maneiras de pensar (de pensar-ser, de pensar-existir, de pensar-continuar) que não se alicercem num ponto fixo. Muitas vezes vejo pensamentos que me parecem ser alavancados em torno de uma ideia fixa… será como pensar movimento em torno de um ponto imóvel… é facilmente explicável, explanável, justificável, verificável, controlável, analisável, comparável, enumerável. Mas há outros pensamentos que vêm do tudo-em-movimento, que não procuram alavancar um objectivo definido a priori, ou ainda pior, escondido – às vezes de nós mesmos, mas está lá na própria estrutura de pensamento que não nos atrevemos a questionar. Assim como nunca nos atrevemos a interrogar a estrutura de como nos movemos. Se me mover a partir de ligações e não a partir da minha acção, que qualidades de movimento aparecem? Se pensar a partir de ligações, e não da minha própria estrutura de pensamento, que qualidades de pensar aparecem? Serão talvez iluminações sobre o que sempre esteve lá, numa imensidão que sempre escapa, sempre provoca diferenças, distâncias, sempre nos ensina que o que somos não tem cabimentação, que o que estamos a ser sempre se distancia do que somos. Se considero movimento não como uma ferramenta, ou uma qualidade do-que-poderia-estar-parado, então tudo se está movendo enquanto coisa no mundo mas também em si própria. Então pensar poderá ser uma consideração das distâncias móveis entre mim e as coisas enquanto as estou pensando. Talvez seja esta a intensidade que o Pedras me convida a ver, a atravessar, a experimentar: a incontinência do que está acontecendo.

margarida

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