tenho estado aqui calada, a abóborar…chegou ao fim a viagem deste pedras17-manual de estar e quero deixar poisar os lençóis da viagem enquanto sinto nascerem já os outros de outras viagens que se avizinham.

lisboa está mesmo constringida de empreendimentos, investimentos, ideias de chupar dinheiro criando vidas fingidas como o condomínio que vai habitar o coração da mouraria, com piscina privada e parque de estacionamento e um cantinho para a “cozinha comunitária”…uma obra enorme que se impõe mesmo contra tudo e todos…deve ser para a madonna! às vezes penso que o pedras devia mesmo sair daqui e começar nascendo onde os movimentos não estivessem tão sufocados pela doença da cidade à venda. mas felizmente não comando nada e aquilo que vamos sendo-estando-fazendo afina-se mesmo no ser-estar-fazer e não se deforma por estratégias externas ao próprio acontecer. tenho aprendido muito e continuo a aprender, ver através de ver é um grande ensinamento.

a cidade é essa montra turística e esse abuso de destruição das suas especificidades para a construção de réplicas pitorescas do que lisboa é, mas também é o eterno mistério que vibra no entre-corpos. ainda teremos que caminhar muito para que a confiança nesse entre-corpos se faça presente em cada respiração. insisto que não me refiro a corpos estritamente humanos…o entre-corpos quaisquer, as fáscias do tecido que vai criando cidade, são paisagens presentes e invisíveis que ondulam em diversas densidades, ritmos e direcções descomprimindo o coração de quem acompanha diariamente o ataque a uma existência sem máscaras, sem propriedades, sem privados e sem polícia.

e lá chega o baile do festival, desejado para o beco da amendoeira, casa da amália e do felismino ou o epicentro da droga em lisboa.

atravessamos a parede de cadeiras que agora marcam mesmo a fronteira para a entrada na rua da amendoeira, com os vigias sentados lado a lado, por vezes até com fita vermelha e branca a delinear território, passamos por um deles a contar um maço de notas que nem lhe cabe na mão, já vai cheirando a grelhados.

no largo uns passos mais acima a vizinhança ajunta-se alegre pronta para comer e beber e dançar, com os filhos e os netos, o gaspacho, o pão de quilo, o chouriço, o vinho, as gaitas de foles, os adufes, as vozes, os lenços coloridos, os cães, as pandeiretas, os abraços.

qualquer momento do baile se abre numa eternidade, a tal afinação do entre-corpos, a alegria a entretecer-se pelas conversas e pelas danças de roda com pés minúsculos misturados com chinelos rudes e pernas cansadas…tudo saltita e vibra.

um homem bêbado vem cá baixo dizer que a festa tem que acabar senão chama a polícia. a alegria não se mancha nem um pouco, aparece o reconhecimento do fechamento do homem trancado na sua miséria enquanto as janelas trazem os que não descem ao pátio como maestros da festa.

ó sô germano mas você até foi convidado para vir comer umas febras, agora é que já bebeu demais e já se varreu…os vigias também comem febras e rodopiam com uma pequenina de sapatos com luzes.

o riso está tão aberto na luz das caras que pode ouvir-se o bater do coração, do coração de cada umaum e do coração daquele ajuntamento comum, um comum que não é identitário, que não possui nada, que se abre e faz não fazendo a festa bailada.

pelas 10 e 15 chega a polícia, devem ter telefonado à parede de vigias sentados nas cadeiras à “porta” do beco da amendoeira para que não fosse tão desenvergonhada esta sua missão de acabar com uma festa cheia de amor onde não há dentro nem fora enquanto o tráfico de droga se esconde nas esquinas que eles bem sabem identificar e espreita o desenrolar da sentença de morte ao baile.

os músicos arrumam os instrumentos mas a festa segue pulsando.

do mesmo universo do abuso violento da “autoridade” seria o confronto com os bailadores…ainda há quem diga que vamos todos para a prisão na carrinha da polícia mas que então teriam que chamar vários autocarros…e desconfio que a festa continuaria pelos autocarros fora. seres líquidos que a polícia não pode agarrar.

a festa que dança nos corpos que a criaram não é assassinável pelas “forças da lei”. o sorriso interno, os olhos brilhantes, o desejo de abraçar continua noite fora até de madrugada, até hoje, até sempre.

sofia

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