Ainda com o corpo a vibrar de uma semana intensa de Pedras-Manual-de-estar com pessoas e lugares, ficou a pairar uma pergunta que tem surgido nas investigações e práticas do c.e.m. e que voltou a emergir durante uma demora à conversa: existirá de facto um ‘nós’ e, a existir, quem fará parte desse ‘nós’? Não pretendo dar uma resposta liminar à pergunta porque claramente não a tenho (e talvez nem exista), nem fui tentar explorar as pistas que muito boa gente certamente já lançou sobre esta questão*. Mas pressinto que devem coexistir na verdade diversos ‘nós’. Do ‘nós’ entre-corpos quaisquer, ao ‘nós’ ampliado da vida-zoé que abarca todos os seres viventes. ‘Nós’ que podem ter designações tão diversas como bando, coro, tribo, multidão, povo. Um desses ‘nós’ será talvez o do encontro, aquele que surge quando os corpos se juntam num estar-com que traz a disponibilidade da escuta e a permeabilidade das membranas porosas. Esse ‘nós’ pode transformar-se num coro se a atenção ao outro e ao que cada um vai sendo estiver afinada ou se for treinada numa prática perseverante. Se os laços que se vão estabelecendo se forem tornando muito densos e rígidos esse ‘nós’ pode eventualmente evoluir para um colectivo tribal, em que a identidade do grupo se sobrepõe ou anula a identidade dos corpos que o compõem. Mas se os laços permanecerem flexíveis e elásticos, os corpos individuais podem estabelecer relações de ‘mútua não-anulação’ e manter assim a sua identidade própria. Um outro ‘nós’ que parece ser comum a diferentes sociedades humanas é o da sabedoria colectiva transgeracional, que se pode talvez designar por cultura. É um ‘nós’ que parece também manifestar-se de formas muito diversas. Quando praticado numa ligação forte, atenta e amorosa ao território e aos seres que nele habitam proporciona níveis de bem-estar adequados e estáveis ao longo do tempo. Já quando é usado para competir com outros colectivos ou para se lhes impor, as consequências podem ser muito funestas e até destruidoras. Algumas destas reflexões surgiram também durante os petiscos para demoradores em volta das questões indígenas. Olhando em retrospectiva para a semana do Pedras, pressinto que o grau de implicação do coro que atravessou as diferentes propostas não foi constante e que isso se reflectiu na intensidade e qualidade dos vários momentos. Mais do que os aspectos técnicos, estéticos ou formais, suspeito que são a entrega, a presença, a atenção mútua que conferem qualidade às práticas de estar-com. Isso e manter as perguntas e a disponibilidade para o encontro com as pessoas e os lugares, continuando a praticar o não-saber, sem se deixar enredar nas narrativas culturais, nos discursos históricos ou nos rituais tribais, mas intuindo que pode haver um ‘nós’ mutável e maleável que se vai construindo e destruindo na relação do mais-que-um que vamos sendo.
 
* Como proposta para uma futura investigação sugeria uma leitura em conjunto (talvez num próximo grupo de estudos) de ‘Être singulier pluriel’/‘Being singular plural’ do filósofo francês Jean Luc Nancy: http://www.sup.org/books/title/?id=643
Alvaro
Advertisements