Trago a perplexidade borbulhante a perpassar o exercício de ser, estar, fazer sem remarcar o que já sei, no fazer do eu com os outros mundos-pessoas, a perplexidade da diferença a perpassar constantemente o que chamamos de tantos nomes como subjetividade, existência, ser, rosto e dedão do pé. E o joelho, sim, também quer sempre falar. Deixa o joelho falar!

Neste festival não pude seguir como queria e, numa busca de como tornar sustentável o meu estar praticando o que interessa praticar, sigo a perguntar-me sem parar como é que posso pulsar a minha prática, dentro-fora no respeito de considerar a prática que é proposta do outro. Fica-me a perplexidade de realizar um festival com pessoas e lugares, ou seja, relações não pautadas pelo marqueteiro publicitário design de pensamento obcecado na exploração estética da arte simplesmente como discurso do viver por viver.

Viver torna-se cada vez mais radical se se quer fazer com pessoas e lugares de fato. O fato é cada vez mais radical e sutil e sutilmente exige coisas inegociáveis. Ou seja, relações que borbulham, que escorregam e que muitas vezes podem passar por muros ásperos. Não há a regulação feita pelo que tomamos por motor do mundo vida pública produções. Não há o grande planificador salvador de como as relações entre os corpos não se perderão, salvaguardadas das viscosidades e asperezas que facilmente espantam tanto o conviver de perto quanto o acenar de longe.

Um festival ou um núcleo de encontros informais deformantes: um manual no sentido das mãos descaradas do bebê desavisado que vai experimentar a geografia sem desenho. Olha lá que estamos cada vez mais ginasticados em sermos bebês, em não nos embaçarmos anestesiados e em não vivermos pela via única do choque, e daí um multimaterial de trabalho: como é que cada um se coloca…

É muito ousado eu usar “nós” aqui. É que, quando vejo as pessoas reunidas, me entusiasmo. Com as pessoas ajuntadas a insistir em propostas cuja legibilidade não é aclarada, no sentido do desenho que nos deram de um trânsito bem definido pela leitura, pelo ser, pela cidade, ou pela dança como disciplina, ou pela arte como discurso institucional. Fico entusiasmado com a possibilidade de sacudir esses edredons com tanta gente diferente, motivada em seu caminhar que é quase invisível para mim, mas que abre brechas luminosas, gestos singelos e fulgurantes pelo asfalto.

Aqui, neste corpo, tem sido cada vez mais sobre

– um otimismo descarado em relação ao impossível

– sair falando sem ser abstrato. acreditar

– o cuidado com a alma das emoções do mundo

– o deixar sentir sem ser modo de defesa. permitir não saber

– o considerar a existência de carinho na teia, nem que seja o roçar do ar

 

Obrigada.

Bernardo Albo

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