esse petisquinho pra demoradores foi bonito demais da conta, sô. Cansaço e reflexões. A gente tudo no chão, não tinha como não estar na conversa, mesmo quietinho. Havia muito espaço pra fala e um assunto muito de todo mundo, facinho de se implicar. Peter dilatando o tempo e o espaço lá na Livraria Ferrin, nossa, como ficou grande aquela sala. Como é grande. Um movimento de ajustar a cadeira, uma tosse, os homens passando de terno, a secretária. Não sei, parece que ele ampliou a cena para os limites físicos da sala. Tudo o que se passava fazia parte do que estava se passando, rs. Entende? Mais ou menos. Para ir ao quilombo, normalmente duas vezes por mês, saio de minha casa e pego um ônibus que nunca pego, com pessoas que provavelmente, não encontro quase nunca, vou para uma cidade, Candeias, que eu nunca iria… pego uma van para São Francisco do Conde e, as vezes, quando o motorista da van é morador do quilombo Dom Joao, ele não cobra da gente. Agradeço. Sem muito esforço, naturalmente, esse caminho para ir ao encontro já me dá grande consciência do lugar que eu ocupo nesse mundo, e de como ele é grande e quantos tantos lugares há, e como sabemos muito pouco dele. Mas, quando eu falo de “lugar que eu ocupo”, falo sim como branca classe media intelectual artista seja la o que for, o nome que se dá. Penso se é um processo também de aceitação, mesmo. Quando vou chegando no quilombo, e estou o tempo todo chegando (agora mesmo estou chegando por lá, encontrando Joca e Seu Zé, comendo sururu, rs), vou percebendo que eu e Zé Preto e Índia somos exatamente iguais. Temos braços, pernas, estômago, rins.. mesmo se um de nós não tivéssemos um braço, por exemplo… ainda sim seríamos iguais. Venho percebendo há um tempo que nosso encontro com estes moradores não fala de diferença. Lembro-me da frase colocada por Álvaro no nosso petisco, falada por James Baldwin no filme I am not your negro. I am not a negro. I am a man. You think I am a negro… Paro um pouquinho, bebo uma água. Olho pras frases aí de cima. Mas, se eu digo que somos iguais, estou falando ainda de diferença. Percebem? É a questão da oposição. Os opostos são a mesma coisa. E Sofia me sussurra aqui novamente nas aulas da manhã. O corpo que está sendo Marcella. Não estamos indo lá para encontrar o diferente. Não estamos indo lá para um encontro consigo, como também já pensei. Estamos indo lá para encontrar, para trabalhar em que acreditamos, fazendo um pouquinho como nossos braços alcançam. Estamos lá sendo iguais, sendo diferentes, partilhando um espaço-tempo, fazendo junto, trocando. Cada um no seu lugar-corpo, todo mundo no mesmo barco-mundo. E, ainda na sala da Ferrin, alguém se levanta. E fica pronto nosso cuzcuz a lá Marquinhos.

clara passaro

Lisboa

(a foto é do nosso Alvaro, querido… durante o Instaura-ação).

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