O que pode um jardim?
Durante uma das minhas estadias no jardim Braancamp Freire (Campo de Santana) surgiram-me as imagens do início do filme ‘Blue velvet’ de David Lynch*: uma sequência de imagens de casas e ruas dum bairro residencial suburbano, que invocam uma atmosfera de normalidade e tranquilidade quotidianas, e que dão lugar à cena de um homem que rega o seu jardim; a aparente bonomia inicial é substituída por uma tensão crescente quando a mangueira se enrola num tronco e o homem é acometido por convulsões, caindo por terra perante o olhar duma criança e o alvoroço dum cão que brinca com o jacto de água da mangueira; a câmara desvia-se e aproxima-se do relvado, mergulhando no solo e revelando um submundo habitado por insectos que se contorcem na escuridão. Pressinto que a invocação daquela cena tenha resultado das minhas interrogações sobre aquele espaço, que foi revelando as suas camadas superficiais, mas que me parecia esconder algo mais profundo nas suas entranhas. A superfície muda, o interior transforma-se. De cada vez que me adentrei no jardim, ele foi revelando mudanças subtis que dependiam não só do dia e da hora, mas também do percurso que eu próprio fazia e dos locais onde me detinha para observar e para escrever. As mais notáveis tinham que ver com as alterações na folhagem e na floração das diferentes árvores e arbustos, mas também com as movimentações das aves e das pessoas que habitam ou atravessam aquele espaço. Estas alterações não pareciam modificar significativamente a qualidade ou a essência do lugar. No entanto, pressenti que ocorriam transformações mais profundas que se operavam de forma inacessível aos meus sentidos primários, quer pelo seu ritmo, seguramente muito mais lento, quer pela sua natureza, como as inúmeras comunicações entre as plantas mediadas por uma linguagem bioquímica e biofísica que nos escapa. As transformações também foram surgindo em mim próprio: desde as primeiras abordagens, que tiveram um carácter mais exploratório, de reconhecimento do espaço e das plantas e animais que ali se encontram, para um olhar mais reflexivo que me levou a interrogar-me sobre as potencialidades do lugar, num cruzamento com as minhas interrogações anteriores sobre natureza, corpo e cidade. Será possível trazer outras componentes da natureza de volta à cidade em lugar de nos termos de retirar da cidade para exercitar aquilo que se tem designado por retorno à natureza? Na verdade, existem já experiências diversas que potenciam outras formas de viver na cidade através por exemplo dos chamados ‘jardins comestíveis’** ou das hortas urbanas. Uma outra alternativa seria a introdução de espaços baldios para o desenvolvimento de vegetação espontânea, minimizando a intervenção humana. A palavra ‘campo’ que é ainda usada para designar este e outros espaços da cidade podia assim recuperar o seu significado mais antigo. Aumentar a potência do espaço público é abri-lo a formas diversas de fruição e de encontro que nos afastem da domesticação imposta pelos modelos mercantis e formatados a que estão a ser reduzidas muitas zonas da cidade.
Alvaro
 
* Cena inicial de ‘Blue Velvet’ D. Lynch (1986):
** Jardins comestíveis:
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