foi numa destas últimas rotas que o vi. haja esperança.tantos humanos a desafinar o mundo e ele com toda a atenção a atarrachar. rodava mais um pouco, olhava para um cima qualquer, a medir, voltava a ajustar.

íamos a caminho de alfama. deixando para trás o “novo” campo das cebolas todo arrumadinho e pronto a ser consumido. por entre as enchentes de turistas e câmaras fotográficas, os habitantes divididos entre odiar as invasões ou rogar-lhes pragas à passagem e talvez compor mesinhas típicas para saborear os santos populares à velha maneira bairrista e ganhar uns trocos extra. a velha cega que conheci em benfica com o namorado velho cego e desdentado a queixar-se junto à fonte da rua da adiça que não havia direito que tinha ido às 6 da manhã para o centro de dia à consulta e que não tinha ouvido chamar o nome dela….que é surda…o largo do correio mor entupido de lixo das obras da frente, o “algarve” que nasceu em tunes e veio para a mouraria já farto de esperar poder voltar à terra que revê na cadeirinha de pinho que trago comigo, a dona lurdes, a são da tigelinha que pôs umas quase-mesas-esplanadeiras enfiadas nos pinos do passeio na maré daquilo que fomos fazendo estes anos na ciganice de ir abrindo espaços de possibilidade por entre a malha cerrada de terror, o muro de poeira fina a continuar a manchar o ar que as crianças respiram no único momento de brincadeira livre que têm durante o dia de escola e gritaria, o calor abrasador que o senhor trump não reconhece ter alguma raíz nos “reis do agronegócio”, nos “produtores de alimento com veneno”, em quem rasga os mares e destrói as vidas…

lá estava o atarrachador de mundos naquele pequeno gesto de ajustar os colapsos e alinhar por momentos uma onda onde se pode respirar.

sofia

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