é estranho que eu venha a uma parada ou marcha do orgulho lgbt, se esse ajuntamento e se esse orgulho não significarem que, como diz caetano veloso, “de perto, ninguém é normal”. em minha vida cotidiana os espaços para estar junto, essa coisa palidamente chamada de sociabilidade, são calcados no longe e não no perto, porque social não há nenhum, espírito de coletivo é maquiagem ou é raridade. coletivo é algo construído com muito carinho & cuidado, não com os signos prontos que nos deram vindos sabe-se lá de que face a olhar fixa pra um ponto no nada.

os fascismos, as fixações também existem na exigência muda de espaços que funcionam como guetos, há alguma continência da qual se tem que desviar em clubes, restaurantes, museus, discotecas e afins, se você não quiser bater de cara com alguma obrigação imposta à sua sensibilidade, ao seu modo de dizer corpo em silêncio. tornamo-nos especialistas em constranger.

em minha vida cotidiana os espaços para estar junto não possibilitam ao corpo estar presente de modo expandido, sendo com um animal, ou sendo com um vegetal, ou com um mineral, ou com um ser que não é aclamado com likes. por “ser”, leia-se: presença EM CORPO AQUI E AGORA. sobre “modo expandido de estar”, ainda sabemos pouco o que seja, pois não praticamos quase nada. tenho algumas pistas sobre o que seria estar presente lado a lado, uma vez que o trabalho com danças tem feito algo sobre isso, mas não é um traço próprio das pessoas que dançam, é bem estranho, me parece, inclusive a mim. no entanto, gostaria de dizer que não há, na vida, maneira de se desviar completamente do desconhecido, do estranho, do outro e da surpresa. sejamos bem-vindos.

eu poderia dizer que, em minha vida cotidiana, gostaria de estar de forma expandida com outro homem, sendo eu algo que reiteradamente se chama de “homem”. entretanto, o fato de que traga um pênis entre as pernas — e não tenha me sentido convidado a outra forma de existir sem ele — uma vez que há muitos outros tipos de pênis, essa construção pra lá de cultural — esse fato não garante que em mim o pertencimento a determinada escola de comportamento, a determinado modelamento da voz e maneira de cruzar as pernas, em busca de alguma aprovação de minha virilidade.

o empenho de minhas energias vitais, senhoras e senhores, acabou se voltando ao desnudamento de meu ser, de minhas sensações em parte incomunicáveis diante da abominável pasteurização instaurada sobre a forma de ver o que é uma pessoa e como se dirigir a ela. dedico-me a despir-me da consideração planificada sobre o que é ser alguém. isso inclui também o fato de que ser humano não é um privilégio e muito menos um orgulho. há coisas para aprender com uma árvore ou com um pedaço de poeira que poderiam levar o dobro do tempo de nossas mesquinhas carreiras acadêmicas e, seguramente, até mais. os saberes ameríndios já sabem disso há muito tempo, além de outras tradições orientais, isso quando não se engessaram na consideração de serem tradicionais.

há muito o que aprender e, portanto, não me vejo a ressoar o discurso de fúria que acumulamos enquanto minorias. acho que podemos trabalhar com o canto do olho, com o olhar que não olha exclusivamente, com o olhar que não prioriza o que está à frente, a representação bidimensional dos príncipes ladrões. acho que podemos ganhar muito com a consideração de que a verdade demora. do mesmo modo, a verdade não é uma chegada. é um caminho interminável. nós somos humanos e nós morremos, ok?

isso inclui aprender a criar. somos criadores de nossas vidas e de nossas belezas, mas esse dado foi sequestrado pela publicidade e pela disciplinarização dócil dos corpos. decidir buscar por si as próprias imagens de uso pessoal e também coletivo — imagens do que é bonito e traz respiro: isso não faz de mim uma pessoa gay, lésbica, bi, trans ou _______. essa sopa de letrinhas continuará a significar, eventualmente, pesquisa de mercado, enquanto aprisionamento do respeito ao que gostará sempre de ser selvagem.

__________ faz de mim um buscador, um guerreiro, uma bicha e uma célula de sabe-se lá que tecido no infinito do escuro do cosmo. & uma planta, que elas sim sabem respirar. demito-me de estar em representação de uma etiqueta, demito-me de qualquer salvação, seja ela qual for ________ que possamos trabalhar na busca do nosso próprio modo de falar & de estar, agora e sempre, que assim seja.

 

bernardo

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