O que é trabalho? Como digo a mim própria ao final do dia, hoje trabalhei x horas e depois fiz outras coisas que não são trabalho e depois ainda fiz outras a que chamo de lazer e ainda há um tempo em que não faço nada e outro em que me ocupo de tratar de mim mesma… mas como sei o que cada uma delas é, ou porque tenho necessidade de as distinguir? Desconfio que às vezes é para alavancar trabalho… para ver se posso potenciar essas horas a que me dedico a a trabalhar, ou maximizar as acções que desenvolvem trabalho em direcção a mais eficiência, maior obtenção de resultados, ou resultados mais adequados ao objectivo traçado. E dizer-me: “Hoje trabalhei bem!” E assim, todas as outras acções à roda desta têm legitimidade de existir, porque as coloco em relação com uma justificação última que é: Trabalhei bem. Então tenho direito a entreter-me, a tratar de mim, a fazer nada… Pensar assim tem consequências… como pensar sempre tem consequências… é que por este caminho qualquer acção é passível de ser trabalho unicamente pela sua forma: porque faço aquilo para que me pagam, porque faço aquilo a que socialmente se atribui valor, mesmo que não me paguem, porque faço aquilo que consigo explicar porque estou a fazer, e o que é que quero obter com isso, porque gasto forças em troca de recompensas… mas todas estas coisas me impedem de pensar qual é a sensação em si de trabalhar. A ambiência que o mundo me devolve quando trabalho. Escrever este texto será trabalho? Tenho a sensação que cada vez mais em vez me dispor a trabalhar, o que me acontece é que me apanho a trabalhar. Que esse fluxo pulsante, essa míriade de sensações com uma agregação que reconheço e que chamo de eu transita suavemente de estados enquanto faço o que faço, e que nesse rigor de fazer o que estou a fazer atravesso densidades de onde nasce trabalho de entre mim e o mundo. E o que é esse trabalho? Não é algo pelo que me podem dar dinheiro em troca, ou reconhecer que está bem ou mal executado, são estados de mim mesma que quando uma acção as atravessa nasce trabalho. Assim trabalho pode ser qualquer coisa, não constrangida pela sua forma ou reconhecimento no mundo. É um brilho especial de corpo que diz: “estou a trabalhar”, e com esse brilho tanto se lava a loiça, como se pensa o que pode ser um relatório, se dança o atravessar de movimento, se vai a uma reunião no rigor da abertura de considerar o brilho do outro. Parece-me que não posso controlar trabalho assim como não posso controlar uma gargalhada ou um estado de espírito. Talvez trabalhar seja o compromisso comigo mesma de convidar o brilho do corpo que trabalha, e a partir daí fazer o que tem de ser feito. E como sei o que tem de ser feito? Pois talvez seja porque o corpo transita de estados, que seja um outro estado de corpo que me diz o que tem de ser feito… o corpo que contempla, o que trata de si, o que não faz nada…

margarida

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