tentando o que anda: o que pensa enquanto anda enquanto pensa. só que não. eu não vou me fazer entender assim. andar também vai ser dançar & o que o dançar estava vendo, claro como um rio, é que a compreensão é uma decepção.

no entanto, o dançar que convido aqui não é só sobre levantar a perna, é também o falar sobre uma coisa que nos move e que a gente saboreia. uma coisa que quando a gente fala sobre ela o corpo muda, ele até desenha formigas de pele com o que está sendo dito. esta fala que chamo aqui pode até mesmo ser sobre um texto que pareça impossível mencionar, sem de alguma forma eu me tornar surdo para o que acontece à volta. distante da consideração do que está sendo presença em minha esfera, não posso transitar pelas reentrâncias do existir, nas nuvens fugazes que são o que realmente importa para que a comunicação não seja instrumentalizada. a comunicação não pode esquecer-se de que é para as pessoas e não para os conteúdos.

eu quero cavar nisso. desejo ir aos textos que formaram um jeito rígido de se relacionar com o ler — desejo ir a eles sem a obrigação do estancamento do olhar diante do que está escrito sem estar claro. não excluir o corpo que trago, como ele estiver sendo, da linha pontilhada, picotada, que se coloca entre mim e o que leio. linha permeável para deixar que o fluxo de entradas e saídas do texto seja fértil e arejado; linha pontilhada que também me une à leitura numa espécie de ducto rigoroso, em que consigo discernir um outro, num fluxo que não é sempre sobre mim e o que já conheço.

dá pra pensar e compreender, mas, sinceramente, o que é honrar o gesto de um ser que cavou no pensamento escrito? seria repeti-lo no caminho do parque temático, como o funcionário cult, ou buscá-lo na sua germinação de risco diante da esfera pública, como o bailarino? o que a gente escuta num texto especial sempre vai transbordar ou desarrumar o que já foi sistematizado. muitas vezes o que a gente lê é amigo do desajeito, mas nem por isso se deve deixar de fazer dança.

ninguém vai vibrar se o próprio buscador não cavar. tem sido árduo deparar-me com antigos hábitos escolares de alienação do mundo. notar como o convívio de fato com os livros tinha se tornado um uso “privado”, no sentido mais despotencializador da partilha. com a palavra que vibra, o meu trabalho tem sido justamente não crispar diante do complexo que é o coletivo. como ler e conversar sobre o que lemos, considerando profundamente o movimento, o polifônico, o ir e vir, o apertar e o esticar, o agarrar e o largar. é como é que a gente fala dando valor à palavra. vibrar garganta não é piloto automático ou figurinha default. vou colocar aqui para lembrar: quando a gente fala, tem um sangue escutando.

bernarda alba

 

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