parece que há muitas formas de fazer acontecer. alguns de nós perdem-se em reuniões e organizações e planificações e discussões e o fazer acontecer sai mirrado e desamado e inconsistente outros metem mãos à obra e arriscam-se a sujar as unhas, a não saber explicar o que fazem, a atravessar críticas desentusiasmantes, outros dedicam-se a criar os seus sonhos e mistérios por dentro das linhas de acção que alguém traz e abrem poesias com vida própria, outros ainda trazem o fazer acontecer entretecido no ser e no estar e navegam o gesto com a mesma pertinência de quem respira…outros…

estar com a cidade no seu fazer-se cidade a cada momento traz todas essas formas de fazer acontecer.

vamos caminhando pelos absurdos das construções incessantes em lisboa.

do miradouro de santa catarina o adamastor mira agora a sede da edp e talvez uma lingua do tejo, com sorte. o ouvido aprende a exercitar o ouvir através de ouvir se quiser saborear as andorinhas para além do som constante de máquinas que arrastam, escavam, empilham…aqui na ajuda, enquanto escrevo estas linhas ao correr dos dedos, uma escarpa gigantesca coroada de caterpillars onde antes havia barracas e hortas, é agora injectada de cimento ao longo dos seus mais de 30 metros de altura a pique enquanto cá em baixo as crianças brincam no recreio com os chapéuzitos amarelos e vermelhos para que se vejam bem e estejam sempre em segurança…talvez até tenham um botão para dizer “beam me up,mister scott” à boa maneira star trekiana, caso aquela massa imensa resolva desabar…

enfim, a cidade continua nos grandes preparativos para vir a ser uma grande cidade e nós vamos encontrando brechas de silêncio que acompanham os seus suspiros e sonhos e gritos.

sentada com a margarida no cais do sodré, esperando que os olhos se desencandeiem da branqueza que agora se estende nos novos passeios da 24 de julho com tapetes verdes para as bicicletas e tudo, tenho o agradecimento de estar com o precioso. um homem de colete fluorescente com o símbolo de fazer parte das formiguinhas da cml limpando os pilares de ferro que orlam o passeio. mas limpando a sério…vá de esfregar com água e detergente, vá de polir com outro pano, vá de retirar minuciosamente qualquer grão de pó que se tivesse atrevido a enfiar entre a calçada e a raiz do pilar…pelo menos uns 25 minutos esteve com 2 pilares, vá lá 3. sei disso porque deu para alinharmos uma série de questões em torno das especificidades da formação em dança, dos seus entraves e vícios, do seu potencial…e lá estava o precioso a exercitar rigorosamente o polimento.

a rota segue atravessando a baixa, subindo à mouraria alta, ao lavadouro do largo da rosa, meio trancado meio aberto e desaguamos no centro de dia onde os corpos se espalharam pelas cadeiras de plástico à volta do quintal para esperar a grande marcação da não menos grande marcha dos idosos que conta com gente deste e doutros centros de dia assim eles queiram ou possam aparecer aos ensaios onde se leva quase uma hora a exigir as condições necessárias para que a marcha seja um sucesso e cerca de 15m a conduzir os marchantes em duas filas para a frente e para trás e também numa roda girando só uma vez que acabaram por ser 3 porque a música não acabava…enquanto esperávamos essas coreografias complexas ainda deu para ler uma história de um livro às voltas com um avô que queria dançar e uma avó que se achava velha mas acaba dançando, inventando pelo meio uma série de outras possibilidades de aparecerem palavras frescas pela história fora e rindo desta forma tão mágica que os corpos têm de florescer quando se ligam a qualquer coisa feliz.

mas lá está, mesmo pelo meio da marcação  da marcha insípida e impregnada de irritações e azedumes, a isabel abanava orgulhosamente o caracóis brancos, com as mãos bem firmes na cintura elegante e os olhos passeando por alguma realidade paralela que só nos segredos aparece.

e nós a aprender,

sofia

 

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