‘Buen vivir’ é uma tradução possível de várias expressões de povos indígenas da América Latina (p.ex. ‘sumak kawsay’ em quechua ou ‘suma qamaña’ em aymara) que descrevem um conjunto de práticas quotidianas (individuais, sociais e rituais) ligadas ao desejo de uma vida plena e harmoniosa da família e da comunidade e que espelham as cosmovisões desses mesmos povos. Como práticas vinculadas ao território e resultantes da transmissão oral de conhecimento ancestral, têm necessariamente diversas variantes. São também particularmente vulneráveis aos fenómenos de aculturação, coloniais ou pós-coloniais. Um elemento central e comum daquelas cosmovisões é a ‘Pachamama’ que é traduzida muitas vezes por ‘terra mãe’ mas que corresponde seguramente a algo mais rico e complexo pois ‘Pacha’ inclui simultaneamente as dimensões de espaço e de tempo. Para muitos daqueles povos a terra, os lugares, são na verdade tempo guardado no território (materialização de antepassados ou divindades) e o tempo é um modo de fazer lugares. Esta foi uma entre as várias coisas que ouvi recentemente através do testemunho duma antropóloga (Luísa Elvira Belaunde) que viveu com comunidades da Amazónia peruana e que partilhou algumas das suas experiências. Dessa partilha retive alguns aspectos que me ajudaram a adentrar um pouco mais os modos de vida daqueles povos e a reconsiderar as formas de viver que me são mais familiares. Um aspecto central é que ‘viver bem’ é a conjugação de ‘pensar/sentir bem’ e de ‘fazer bem’, que convocam uma atenção e uma escuta permanentes para fazer face à fragilidade da vida boa e às perigosidades do mundo. Por um lado, viver bem requer uma atenção ao outro através da comunicação e da generosidade e uma atenção a si próprio impedindo que se instale a ‘rabia’, um descontrolo e um fechar-se sobre si próprio que impedem a comunicação. O viver bem promove a convivialidade sem excluir o conflito. Por outro lado, viver bem requer um ‘fazer bem’, nomeadamente através das práticas de cultivo e preparação de alimentos, com atenção aos ciclos naturais (p.ex. fases da lua), às características de cada planta ou animal e às técnicas apropriadas de os cultivar/criar ou caçar e preparar. Alguns alimentos são elaborados a partir de plantas venenosas ou indigestas que têm de ser manipuladas e transformadas para poderem ser consumidas (p.ex. a mandioca). Às mulheres são confiadas algumas funções importantes como recolher, manter e trocar sementes, assim como preparar utensílios para alimentos e rituais a partir da argila (olaria). Alguns trabalhos são feitos colectivamente (‘choba-choba’, que significa entrançar os cabelos), como a construção de casas ou algumas das tarefas nos campos, e envolvem sempre trabalho seguido de celebração colectiva com danças rituais. Dançar é uma das mais importantes manifestações do bem viver, não só como forma de coesão social, mas também como oportunidade para mudar o tempo e tornar-se outro. Por exemplo, nalgumas danças os homens penduram no corpo as aves que são caçadas por eles para as convocar para a dança. Muitas destas práticas estão ameaçadas por fortes pressões de assimilação – p.ex. ‘escolas indígenas’ onde a educação funciona como ‘bullying cultural’ – e algumas são mantidas ou toleradas como folclore ou como forma de promoção turística. Por outro lado, alguns dos princípios e práticas do ‘buen vivir’ foram apropriados na década de 1990 pelo pensamento académico e por movimentos políticos. Um aspecto positivo desses processos foi a inclusão dalguns desses mesmos princípios nas novas constituições da Bolívia e do Equador, pondo em causa os principais mitos dos modelos ocidentais de desenvolvimento económico e de progresso. As práticas políticas que se lhe seguiram acabaram por não cumprir muitas das expectativas criadas e resultaram mesmo em inúmeras contradições e frustrações. Parece-me no entanto mais interessante enfatizar que estas práticas não correspondem a nenhum padrão ideal ou idílico, mas que podem ser apropriadas por qualquer um/uma com disponibilidade para repensar o seu próprio modo de vida, procurando construir práticas de um viver belamente e gostosamente capazes de gerar processos de autonomia pessoal que se realizem socialmente, numa escuta e atenção constantes da pluralidade, da inter-relação e da reciprocidade do território, dos outros e dos comuns.
Álvaro

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