sair em estado de rota é sair porosamente em corpo atravessável que não se esconde nem se protege do encontro…é portanto intenso…é portanto incomum…sendo que o “comum”, segundo o viveiros de castro que veio sexta passada ao teatro maria matos partilhar os seus pensamentos mas que afinal se ficou por nos ler o que tem andado a pensar…estará mais no “um” do que no “com” neste mundo que vai sendo mundo…talvez o “incomum” seja então o que não aparece muito nem no “um” nem no “com”…

é que um corpo existente, pulsante, poroso, atravessável, nu, é muito claramente chamador de alinhamentos que cada umaum vai escutando em si mas que raramente deixa passar. o zé da triparte está pendurado em cima de um banco a arrumar caveiras e rodopia sorrindo com a nossa entrada, recebe a fanzine da semana e entra em fotografia para a próxima…com calma e desvaidade…quem vai passeando no jornalinho semanal lado a lado com o papa e outras figuras públicas sabe bem que estas fanzines são messages in the bottle, um piscar de olhos entre corpos existentes, não é sobre mostrar ou pertencer ou lamber botas, é sobre caminhar-com. ainda no outro dia uma pessoa das artes, supostamente desassossegada, irreverente, activa(ista), escrevia no seu facebook sobre o orgulho de ter performado nos jardins do palácio de são bento com a presença também orgulhosante do primeiro ministro “himself”. fico basbaque. então a liberdade e o desfascismo vive no palácio? então a multidão que vai constituindo as gentes do mundo continua a baixar a cabeça aos donos do poder? lá está…com certeza a fanzine não seria um lugar para encher o peito.

já a sónia do peixe do mercado da ribeira, que todos os dias ali está às 5 da manhã para descarregar vinda da lota, que tem que lutar por entre os bêbados que ainda sobram do mercado gourmet e a polícia que garante que eles só tenham 15m para retirar o peixe da carrinha, já a sónia, filha da mulher de olhos esmeralda, encontra sempre um tempo de estar connosco em qualidade, abrindo a porta de sua casa trazendo os filhos e as suas aventuras e as constatações de que os turistas só tiram fotos mas não compram nada. como a fátima dos legumes que nos ensina a fazer uma infusão com funcho e gengibre, limão e canela, ou com aipo e gengibre, limão e canela para perder a barriga e desintoxicar…embora a cozinheira de brincos de cérebro de corvina, garanta que a canela é mais para as práticas eróticas…uma cliente senta-se na cadeirinha dona lurdes, cinzenta de cansaço, e a fátima ri-se do desproporcionado da situação, e da forma traquina como a cadeirinha se deu à sentação como se habitasse a venda. a outra senhora do peixe vem buscar a fanzine cheia de abraços, está sem voz porque foi ao hospital com uma espinha na garganta e mandaram-a para casa com a espinha tirada que afinal passados 4 dias ainda lá estava toda atravessada e a inflamar alegremente.

não é “gente simples” do mercado….não é a “alegria pitoresca do povo”, é gente real que não representa alguém, que não baixa a cabeça…que vive vivendo…não digo que se o presidente da república ou outra “figura pública” lá fosse não assumissem (algumas) o “boneco” que se vê nos média, tipo chear lider dos grandes…talvez…por falta de treino de não se deixar ofuscar, mesmo assim ponho as mãos no fogo por muita gente que encontramos nestas caminhadas e poisios.

passamos na casa de chá a seguir às gaivotas e contam-nos de uma instituição para pessoas com demência por onde passam criaturas especiais que tenho vontade de conhecer, a ver, se ali andam havemos de nos cruzar.

a isabelinha da tasca da isabelinha na cruz dos poiais trouxe a cadela linda que se chama linda. sentamo-nos nessa atmosfera caseira e a suzana suave ensina as palmas do fandango espanhol, o manel dos pavões que tinha um gato persa lindo já tem três gatos, parece que passaram palavra dos bons tratos que o manel dá aos bichos que vivem com os outros bichos sem abrigo ali no albergue em frente. o rapaz que só bebe coca cola está meio desorientado com as obras da rua que lhe trocaram o poiso. a rota continua.

o corpo atravessável dá consigo às vezes mais denso do que pode, como uma peneira com os buracos entupidos de areia mais grossa…nada que uma lavagem no mar, um rodopio, não vá aliviando.

é comum encontrar homens enfiados em buracos só com as cabecinhas de fora, obras à porta das casas, guindastes beijando-se por cima dos telhados, passagens para peões onde nem uma formiga se atreve…as escadinhas da saúde continuam expondo o seu vómito inclinado morro abaixo, ali só a especificidade do lixo da mouraria vai enfeitando a ferida, seringas, meias, cuecas, por entre as pedras e a terra colina fora.

vamos ao encontro dos velhotes no largo da rosa, já se entrevêem as cantilenas, o gonçalo vai ser devorado pela milu com certeza mas isso fica para outro dia que este já vai longo…

deixo só aqui mais uma perplexidade que me sacode há semanas mas que nem consegui ainda ter corpo para partilhar com quem está caminhando-com.

então não é que no elevador que diz que vai para o castelo mas afinal só chega à rua de cima se amostram mupis absurdos, assinados pela polícia e pela junta de freguesia de santa maria maior, o controlo e o poder, lá está…a recomendar-nos que não compremos daquela droga que a ciganagem vende por aqui, que é louro e não chamon a sério…e ainda com o preciosismo de nos informar que o consumo não é ilegal mas que se formos apanhados a comprar ou a traficar que a coisa já azeda…portanto…é para estarmos agradecidos pelo zelo.

lisboa no seu maravilhoso absurdo enquanto os paquetes descomunais entornam turistas aos magotes com as suas selfies num pauzinho.

até já

sofia

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