Parece que somos tão adestrados na coerência, em decidirmos uma coisa e termos de permanecer nessa decisão até começar a dar resultados, e dizermos com orgulho que isso foi fruto do nosso esforço e do nosso trabalho. Dizem-nos que formar uma personalidade é apostar numa constância dada ao mundo. E no entanto sinto que as ocasiões onde mais me é dado a aprender é quando apesar de ser capaz de apontar muitas razões para ser de determinada maneira me acompanho sendo de outra. Isso permite-me ver que há uma diferença entre aquilo que eu sou, uma densidade sempre móvel, informe, incontível, e as minhas razões, aquilo que envio para o mundo como definível de mim própria. Aprendo especialmente enquanto me acompanho neste desdobramento de mim, em que por um lado não me desligo de continuar a ver “as minhas razões” e por outro me percebo no adentramento das forças que me revelam a cada momento a densidade das escolhas que se vão tecendo e em como essa distância me aparece como um campo magnetizado, uma descoincidência que me parece vital, a diferença que me impede o achatamento, a finalidade consumada, o colapso da pulsação. Essa pequena distância que me impede de coincidir comigo ensina-me sobre liberdade, e sobre mobilidade. Uma dimensão invisível que me salva da entropia que querer ser definitivamente eu, e me permite ir sendo realmente eu.
margarida
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