Saio hoje pra rua sem muito saber porque, por necessidade. Desço do alto apartamento no centro da cidade o som do trânsito transborda no café com pão na padaria. O jornal molhado que bebo tem reportagens sobre mortes brutas, violentas, sem motivo aparente. O corpo sente logo o medo de ficar na rua. Como é que a gente se proteje? De quem (?)

Saio e caminho para a praça já procurando Dona Adelita. Ela mora na praça Rui Barbosa. Mas não está hoje. Não está em casa.

Vou até a rua da cidadania e dou-recebo um abraço da Ezoraide que conta que a Elizabeth não está. Mas está tudo bem, graças à Deus, diz.

Passo no café da Dona Maria que conversa com o outro rapaz sobre os “vagabundos” que xigam o “cidadão de bem” que está trabalhando. “A senhora vem trabalhar mesmo doente, carregando um montão de sacolas, pega ônibus cheio, tá fazendo tudo certinho pro vagabundo vir aqui e ficar pedindo coisa? E se você não dá, sai te xingando de tudo quando é nome?!” “Eu môo de porrada um cara desses”, diz o rapaz. Tenho a impressão que a Dona Maria puxa esses assuntos quando eu passo lá… pra tentar me convencer de que os “vagabundos” estão mesmo errados. Eu escuto, me incomodo mas escuto mas me incomodo e até arrisco o encontro (?)… mas a conversa fica mesmo na minha cabeça. Fico pensando se a vontade da tal senhora doente não seria “vagabundear” um pouco, ficar em casa. Às vezes parece tão difícil e ruim ir trabalhar… então, vamos largar mão… e vagabundear Dona Maria! Mas talvez o “cidadão de bem” não possa fazer isso. Até porque, se não, ele seria “vagabundo”?! Parece que é preciso sofrer mesmo… não tem outro jeito, diria ela. O encontro com Dona Maria continua agora nesse texto como se algo se abrisse entre nós… separando “ela” e “eu”. Será que escrevo contigo, Dona Maria? Será que escrevo sobre ti? Ou sobre mim? Onde fico de fora dessa conversa que talvez esteja fora da gente mesmo antes de nos encontrarmos?

Com abraço vamos nos despedindo e ainda tem a finaleira sobre o prefeito que está fazendo tudo errado… sobre isso concordamos as duas. Mas vamos que vamos… seguimos… graças à Deus tá tudo certo, diz Dona Maria… pelo caminho sigo conversando com Dona Maria… ou comigo mesma… não é graças à colega que poderia me ajudar quando estou doente? muito menos graças ao vagabundo… será que isso não tem mesmo nada a ver com viver junto?… é Deus?
acho que Deus não iria gostar nada disso…
posso falar isso Dona Maria? Posso escrever já escrevendo? Rs
Quem são essas duas entre eu e você? Você e eu? Deus? O vagabundo? O prefeito?
Seguimos graças à…

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Curitiba, abril
Camilas

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