As palavras escritas na pedra carregam a solidez dos tempos. Quando as leio tenho a crença de que vão durar séculos. Mas as plantas que crescem na pedra edificada são mais vulneráveis. Às 13h35 da última sexta-feira, 24 de Março, um dia de rota com nuvens escuras, chuva e frio, dois tabacos-arbóreos cresciam na pedra por cima das palavras “Património Municipal”, no Palácio Rosa. Olhei e perguntei-me se aquelas duas plantas também eram património? Um património lenhoso, é certo, mas que ajardinava a fachada do palácio. Digo a hora porque não sei se as plantas sobreviveram mais tempo. Há património mais transitável do que outro, toda a gente sabe disso.

Na página da Câmara Municipal de Lisboa sobre o Palácio Rosa, os tabacos-arbóreos não apareciam numa das fotografias deste edifício que fica na esquina entre o Largo da Rosa e a Rua do Marquês de Ponte do Lima, nos limites da Mouraria. Segundo a câmara, a data original do palácio é desconhecida, mas no século XVIII sofreu uma “profunda intervenção arquitetónica ou mesmo total remodelação”. Os dois arbustos, que já têm tronco, germinaram depois daquela fotografia, adicionando uma camada natural a este património lisboeta com séculos.

O Álvaro explicou que a espécie é parente do tabaco que se fuma. Mas este é arbóreo, como o nome-comum indica e como os dois espécimes à nossa frente demonstravam. Olhando para o conjunto “Património Municipal”, tabacos-arbóreos e pedra pelo meio, sonhei com as cidades utópicas do futuro, onde os prédios se misturarão com os jardins, numa nova urbanidade-verde com o sabor do antropoceno. Mas no dia em que o Palácio Rosa for restaurado, aquelas plantas certamente desaparecerão. Serão um património volátil.

Já a auracária-da-austrália que se vê dali parece ter um futuro estável. É alta e bonita. Perto do jardim escondido onde cresce esta árvore, tínhamos avistado antes um ponto amarelo. Ninguém sabia o que era até o Álvaro assegurar-nos de que se tratava de um limão. O fruto pertencia a um limoeiro que está a galgar o muro de um outro jardim. Mas enquanto ponto amarelo desconhecido tinha sido alvo das nossas fantasias. Por coincidência, dei com um poema do Miguel Torga chamado “Fantasia” que fala sobre um limoeiro. A primeira estrofe:

“Canto ou não canto o limoeiro

Aqui ao lado?

Ele é tão delicado!

Tem um jeito tão puro

De se encostar ao muro

Onde vive encostado…”

Outra planta com poesia é a umbigo-de-vénus. Cresce nas paredes, nas zonas húmidas e com sombra, e tem uma folha carnuda, redonda e com profundidade que permite ver o seu vértice. Por isso tem o nome “umbigo”, explicou-nos o Álvaro, que desenhou a rota de sexta-feira numa cidade-vegetal. Observámos um espécime nas Escadinhas de São Cristóvão – o santo que leva o mundo às costas, ou seja, Jesus. E outro já na Rua do Marquês de Ponte do Lima, depois do palácio.

Reparei no livro sobre espécies vegetais do Álvaro que a Umbilicus rupestris tem muitos outros nomes comuns além de umbigo-de-vénus. A saber e por ordem alfabética: bacelos, bifes, cachilro, cauxilhos, chapéus-de-parede, chapéu-dos-telhados, cochilros, conchelos, copilas, couxilgos, orelha-de-monge e sombreirinho-dos-telhados. Talvez alguns destes nomes sejam de regiões específicas de Portugal. Se assim for, serão muito mais do que alternativas a umbigo-de-vénus, cada um dos nomes estará associado a uma história e uma geografia específicas. São palavras-paisagem na memória das gentes. Património em forma de letras que não vive da solidez da pedra, morre se deixarmos de o pronunciar.

nico

Advertisements