Ontem eu assisti a Lia Rodrigues, “Para que o céu não caia”…. Acho que essa história da queda do céu é um dos nossos grandes mitos brasileiros. Senti isso vendo a peça de dança e me lembrando da Sagração da Primavera. Assisti a Lia e lembrei do Nijinsky e da Pina e fiquei fula comigo por ainda precisar de uma referência europeia. Esse trabalho é um soco na cara justamente por isso. Por que faz olhar para dentro. Um dentro coletivo, ancestral, mítico. Queria muito compartilhar contigo, Sofia, o que foi ver aquilo. Chorei durante 60 minutos, dos 90 que tinha o espetáculo. Chovi. Houve algo ali que me pegou e não foi só no campo do significado, da metáfora ou do tema – que já são em si próprios arrebatadoríssimos.
Mas tinha algo ali sobre arte, e sobre zeitgeist – espírito do tempo. Me assombrou bastante.

Há tempos que sinto que o mundo está muito denso. Em 2014 quando fiz 3 peças pra arquitetura, e também Corpocidade e Certas Coisas não devem ser nomeadas (aquele espetáculo que durava seis horas e que entrávamos com uma moto no teatro e que tinha um show com a banda dos moradores de rua fazendo versões de rock nacional)… enfim, naquela época já sentia que estava fazendo arte em tempos de apocalipse. Mas mais recentemente, com esse novo fascismo avançando, esse sabor de fim do mundo foi se acentuando e já o sinto transpirado no ar em tudo que tem sido feito com um mínimo de profundidade.

Mas nem tudo segue essa afinação com o espaço-tempo, às vezes me desiludo com a arte pois de alguma maneira sinto que muitas obras de modo geral, se distanciaram do ser humano comum, ou dessa vida de barbárie que o próprio modo de vida alienado e segregador do capitalismo incita. Às vezes acho a produção artística muito digestiva. E me chateia quando o discurso é hermético, elevado ou cheio de conceitos… Hoje nesses tempos de governantes “gestores e não políticos” como o prefeito das fotos em SP ou o apresentador de tv na presidência dos EUA, entre outros bonecos de cera, escancara-se um ímpeto de perseguição voraz aos artistas e há marginalização total da cultura. É horrível e acho que nada justifica. É um revés do medo e uma polarização entre artistas e sociedade calcada na lógica do prejuízo. Como se tudo fosse calculável, quantificável… Como se o benefício de um fosse um malefício para o outro… Matemática tosca de somar e subtrair, sem dividir sem multiplicar… Aprofunda-se minha tristeza.
Tem vezes que em meus exames de consciência, me pergunto enquanto artista, enquanto classe artística, enquanto parte de um sistema: como contribuímos para que essa separação entre artistas e pessoas de verdade tenha se acentuado…. Às vezes acho que contribuímos. No grupo em que eu trabalho a gente tenta não fazer isso, mas acho que muitas vezes o mercado e os circuitos da arte levam a coisa pra esse lugar. Lembrei agora de uma fala de um bailarino que foi assistir a estreia do nosso último espetáculo Díptico das Multidões. No meio de um momento da dança em que uma das bailarinas foi dançar mais perto dele, ele a repreendeu: “bicha vc tá em cena!”.  Pois é! Que cena é essa que nos afasta de ser pessoas… De dançar sem capa mágica… Enfim não reflito em busca de origens do problema, mas reflito buscando consciência para esses modos de ser que estão colocados. Quero encontrar uma via que não seja reativa. Por isto tenho evitado a reclamação e o pessimismo, e nem sempre é fácil.
Semana passada retomamos nossos “ensaios”, propondo não fixar nenhum desses modos, e a própria ideia de ensaio inclusive. Estivemos horas na praça, simplesmente dançamos inteiros sem julgar e sem controlar demasiado, dando corpo ao que o sensível nos mostrava como movimento. Foi mágico e meditativo. Apesar das dezenas de policiais fazendo ronda no espaço, nenhuma abordagem aconteceu e sinto que emanamos um modo de estar na praça que transformou-a um pouquinho.
Me interessa demais pessoas de verdade que dançam. Sem aura de artistas. De roupas comuns e tênis.

Às vezes receio ser lida como escapista por continuar afirmando despretensão, verdade e gratidão mas afinando a escuta do meu propósito só encontro atualmente sentido no caminho da espiritualidade e do amor. Digo namastê, Digo gratidão, Digo haribol e são palavras que significam muito quando emergem dos meus lábios em forma de som que chega ao outro nesse mundo assim. A camada do misticismo é só uma das incontáveis que aparece aqui. Atuar nessa textura molecular muda demais a forma como a atuação acontece. O invisível ganha tônus.
Lembro ano passado quando uma das bailarinas do grupo não quis participar de uma manifestação, o manifesto da delicadeza em tempos de brutalidade, ao qual todos fomos e foi lindo. Na época ela não conseguia se conectar com essa luta e ninguém a compreendia, embora entendêssemos… Hoje eu a compreendo, esse caminho de uma consciência maior abre uma percepção de que nem sempre as ações devem ser imediatas, macroscópicas e relacionadas a estrutura. Há muita coisa agindo no oculto. E muitas vezes a ação de transformação tem espaço no micro e demora muito tempo pra se gestar…

Não é fácil insistir nisso. Não sei também se já introjetei criticas externas, mas às vezes questiono o que a observação, a reflexão, a ampliação da consciência, a sintonização com as vibrações elevadas e outras buscas vai mobilizar… Principalmente quando vem uma fala acusatória de “vc não está se mobilizando” parece que esse caminho não vai levar a nada…. Nessas horas preciso respirar fundo e sentir meu coração batendo. Cada dia mais me centro e percebo que esses questionamentos são testes, porque a ação nesse plano sutil traz respostas muito claras. Claríssimas. Respostas sutis, e por isso mesmo preciosas. De repente acontece algo. O acontecimento jorra aos olhos, e as nuvens carregadas não chovem enquanto estamos descobertos, ou a guarda municipal não nos constrange quando a tudo está punindo, um convite para dançar aparece mesmo quando vão se rarefazendo as pautas e os espaço. É preciso confiar. É possível! E é um trabalho e tanto essa confiança.

Ontem quando assistia a Lia abriu se pra mim outra perspectiva (os trabalhos dela sempre me abrem). Talvez pela primeira vez em muito tempo ontem tenha visto na arte (e nessa arte de mercado, circuitos e vícios) a possibilidade de tocar essa tal espiritualidade (ou ato, ou rito) numa textura bem mundana, sem criar elevações (falando de onde se está e sendo potente nisso). Isso me tocou muito. E também reforçou que ainda há caminhos no mundo material, no mundo da linguagem no mundo da elaboração artística a serem percorridos. Estava nesses tempos de reflexão sentindo que a arte (essa arte que cabe em livros de arte) estava sem sentido. Eu vinha observando o manejo da linguagem como um grande exercício de ego dos artistas. Ontem revi esse pensamento. Sei que vou começar nossa semana de trabalhos afetada por esses questionamentos. Que venha a ventania.

paulinha

Advertisements