muitas vezes saímos para a rua escrevendo ora caminhando ora poisando, mas este ano todas as quintas feiras acontece essa saída silenciosa. saímos da casa do cem e vamos atrás das pernas, quase sempre com a cadeirinha ou o banco dobrável, e sempre com o caderno e a caneta.

escrevo escrevendo, deixando a manhã brincar com a caneta.

lisboa está em grandes preparos, como a outra a escovar brutalmente o cabelo da rapariga que vai levar a trança à festa.

na rua dos douradores as pensões mudaram para guest houses, a ourivesaria é agora um monte de pó, a adega dos lombinhos fez-se fantasma e há quem diga que renasceu na penha de frança…

oiço o roer dos prédios por dentro, na rua da prata, um som amplificado de mastigar pormenores que insiste saltar pelas janelas abertas, despudoradas, numa fachada suja e desrespeitada, sempre com aquele cartaz que nos pergunta se sabemos o que aquilo vai ser…pergunto-me o que falará cada quarto daquela casa enquanto os homens arranham, comem e cospem a sua carne.

por trás de nós outro prédio enorme todo esvaziado vai ganhando pó como uma carcaça de bicho gigante a apodrecer na estrada.

está a chover e os turistas de chinelos resguardam-se debaixo dos toldos das lojas com canhões fotográficos a apanhar tudo o que podem. o elétrico 12 que vai pela praça da figueira e castelo de são jorge passa duas vezes com a mesma menina condutora de óculos pretos e cabelos lisos.

aninho-me na inclinação de uma porta grossa de madeira trabalhada. ali em frente a uma vitrine abandonada a margarida e o marcos escrevem em silêncio e o silêncio da escrita vai massajando o coração da cidade.

sofia

Advertisements