imersas nesse exercício para o Encontro, exercício-prática feito e refeito a cada vez que atravessamos o longo corredor de chão de Terra que aperta-se ao lado da graaande fazenda engenho d’água, em direção à vila que vem se instalando em Porto dom joão..

exercício de despir-nos, peça por Peça, sempre no caminho

deixo para lá o oque já sei sobre construir uma casa, tiro uma manga da camisa com resquícios finais sobre métodos de participação, chuto pro cantinho régua, papel e tesouros… fico com meus seios amostrados e os quatro pés no chão de Terra…

os olhos direcionam-se para o cantinho direito e para cima… memória….. clarice lispector Sussurra-me mais uma vez Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar..

o desejo é chegar

deixar-se chegar

deixá-los chegar

Como ir se aproximando de uma comunidade com a qual temos um forte desejo de “trabalhar com”? Como não impor abruptamente nossa presença, acolhendo os moradores enquanto somos acolhidos por eles? O que poderíamos usar como estratégias inventadas para chegar pelas beiradas, chegar estando já dentro? Quem escolheu trabalhar com esta comunidade, fomos nós ou foram eles?

Nós nos fizemos estas perguntas algumas vezes, enquanto exercitávamos com a comunidade quilombola Dom João  a chegada de uma equipe de estudantes residentes em Habitação Social e Direito à Cidade para trabalhar “junto com”, como assessoria técnica em auxílio às questões de habitação que tangem estes moradores.

Passamos este ano de atuação conjunta imersos na escuta do que pode vir a ser esse “chegar” em Dom João. A cada dia de encontro, e a cada dia de visita, a nossa chegada configurava uma atmosfera diversa. Como estará o quilombo hoje? Como convidar os moradores, hoje, a estarem com a gente? As respostas brotavam exatamente onde se realiza o fazer. Apareceu música e pandeiro, apareceu visitas à cada casa, apareceu “fazer nada” e aguardar. Sempre exercitando a busca do diálogo com o que ali já estava, praticando a “escuta” de uma comunidade e de suas disponibilidades para o trabalho conosco.

 

clara passaro

LisboaDomJoãoSalvador

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