às vezes chego de volta ao cem em grande furacão, como se cada uma destas vidas que encontro me atravessasse com tal vigor que a ressonância desse atravessamento teimasse em permanecer mais em mim que o corpo que vou sendo acompanha…é a força da tal paixão de que talvez fale espinosa que nos afecta brutalmente e que exige que não te esqueças de te criar a ti próprio, exige que não te canses de existir para lá das forças que te atravessam. a tensão justa do encontro corpo-mundo é misteriosa. ontem saí escrevendo a convite da margarida e vi-me entrar por entre lençóis num universo onde essa afectação não é assunto. não é que não me impregne de densidades de vida, de sofrimentos, de descobertas, de beleza…é que está permanentemente a brotar uma atmosfera de ser que me alinha com essas densidades que o mundo vai trazendo numa experiência de navegar-com. o corpo desliza, os encontros fluem. cada passo abrindo uma folga entre camadas.

no cabeleireiro carvalho aqui na rua dos fanqueiros dizem que os últimos dois anos desertificaram tudo o que não seja sobre comer…os turistas não se interessam pelo belo. talvez o cabeleireiro se devesse chamar cabelo na sopa ou cachupa no cabelo e servir cozinhados africanos enquanto outros se penteiam. a pureza está com a teresa atrás do balcão das lãs. têm frio e lá fora está tanto sol, uma diz que depois de certa idade não há mal que lhe não venha, como o perdigão que perdeu a pena, a outra diz que sempre que lá vou tem a mesma camisa…mas nada do que diz que dizem ressoa no ar, antes uma ondulação de simpatia, de sorrisos-criança.

aquele enrola as castanhas quentes em resmas de papel navigator ainda a cheirar a novo. a vanessa da mouraria entrou em buraco numa das ilhas que o largo de são domingos abre, entre quem vive na rua, quem vende amendoins, quem faz negócios rebuscados com gente engravatada, quem passeia magotes de turistas. vou acompanhando vidas que aparecem e desaparecem, se abandonam, desistem, retornam. se entro no centro de dia e me entupo nos sinais só consigo ver um depósito de gente mais velha, a esticar as horas juntos para não estarem sózinhos. se me permito respirar sinto cada umaum no seu brilho próprio. como quando estou na creche e aqueles corpinhos se permitem ser, brincar, descobrir, experimentar, vozear.

aquele hotel diz “feels like home”…não, home feels like home…e home é onde quer que o corpo possa ir sendo liberdade.

sofia

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