Depois da Praça da Figueira, devo ir, acho eu, à caminho da rua do Benformoso, mas espero um pouco sem razão na Rua da Madalena. Como um chocolate e sinto o açúcar ocupar todos os cantos da minha boca. Estou em frente a pastelaria Costa Azul e mesmo que daqui não dê para ver, sei que a decoração em cima do balcão é feita de notas de dinheiro antigo, de vários países. Objeto estranho para se colocar como honras da casa. Estou sentada nesses bancos que dispostos uns aos outros nos fazem nos dar as costas. Somos muitos, é a pausa para o almoço e evitamos assim de nos olhar. Carrego na minha mochila muitas possibilidades, uma câmera fotográfica, um livro que me foi emprestado pelo Nicolau, um caderno, uma caneta, linhas, roupas, as chaves da minha bicicleta, 0,60 centimes para um café. Nas memórias de Paris e São Paulo, sinto o tempo correr devagar em Lisboa, mas eu continuo com pressa. Uma urgência de não sei o quê, que me atropela. O sol me esquenta e eu mudo de lugar. O açúcar do chocolate já caminha para o sangue, pâncreas, fígado, pontas dos dedos. Essa sensação, misturada a claridade do dia, me faz pensar no estrangeiro do Camus. Eu não sou daqui, mas é quase como se eu fosse e me apetece estar sozinha. Me sinto cansada, tenho as pernas cruzadas e uma garrafa de água no meu colo. Ao meu lado uma mulher sentada com um jaleco branco, estamos bem próximas e sinto o calor que ela irradia. São muitos os sons por aqui. Uma obra um pouco mais embaixo, no ouvido esquerdo. Os carros que passam, passam e repassam. As vezes uma moto um pouco mais barulhenta. Uma música pop de algum celular. E uma conversa no ouvido esquerdo sobre roupas que nos deixam gordas, as mulheres. A minha frente o caminhão da superbock com os dizeres “a vida é super” me faz pensar num texto da Coline. Uma velhota grita taxi com uma voz tão incomum, e ela não se aguenta entre duas sacolas. Vou lá. Descalça, sinto nos pés a sujeira áspera do chão, faz tempo que andavam cobertos. Chamo o táxi com ela, que entra no carro com seus dois sapatinhos brancos. A senhora vai embora e eu fico, para continuar.

Carol

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