hoje é um dia diferente, está calor e as motos de aluguer não estão a ocupar os parques, deve ser por ser dia da mulher…os turistas foram todos passear para outras paragens em honra da felicidade. caminho muito devagar pela rua dos fanqueiros, os olhos estão sempre espantados, a estrear a vista. ou porque o que estava ontem já não está hoje, ou porque os detalhes que aparecem agora nunca me tinham aparecido: a luz esverdeada daqueles azulejos em frente à abilini-uma velha loja com saldos a menos 90%, a nudez de matizes amareladas e acastanhadas no interior daquele edifício por cima do napoleão ao lado da pombalina, a imobilidade  estética da sónia da drogaria, de vestido vermelho e lábios vermelhos à soleira da porta…as pernas deslizam pela rua da vitória onde tantas vezes me demorei à conversa com o sr. manel que sabia muito do mundo, um dia havia de vir dançar ao cem e preferia viver na rua do que ser escravo.

a porta do val do rio está aberta, há mais de um mês que não vemos o sr. carlos e que aquelas portadas estão cerradas e imóveis, já pensávamos que o senhorio tivesse vendido aquilo de vez e que não voltaríamos a falajar  por aquelas paragens enquanto ele inventa coisas para fazer com as mãos. desta vez, para além das plantas de cultivo caseiro, das obras em papel de jornal torcido e pintado, das caixas vazias com legendas maravilhosas, das colecções de garrafas…abriu também uma pequena biblioteca, são bem felizes aquelas prateleiras de madeira pesada onde já não se vende nada há anos! afinal foi operado a uma hérnia há 40 dias e, como tem uma doença raríssima, não sara a cicatriz. diz que amanhã vai ver como está aquilo ao médico mas que sexta está de volta ao balcão para conversar connosco, que sente muito a falta. passou os dias deitado na cama mais umas horas só com o nariz de fora, com vontade de ir plantar alfaces e de repintar o muro e de fazer o que lhe desse na gana…na televisão só conseguia apanhar o national geographic ou o odisseia que o resto é disparate sobre disparate a encretinar as pessoas, e até digo à minha mulher se não quer explicar-me o que aprende com as telenovelas…ela diz que cada um vê o que vê, mas ela trabalha com situações tão complicadas de gente idosa, como consegue estar aquele tempo ali diante de tanta asneira? não se aprende nada, nada.

despeço-me até sexta e vou à polícia da rua da prata porque perdi os documentos da moto. lá estão todos fardados de azul, meninos e meninas, o senhor da porta, também azul diz-me simpaticamente para me sentar e esperar, vou estudando o livro das fascias e entreouvindo que são muitas mulheres e só uma casa de banho e que vai demorar mais de hora e meia, e que o chefe acha que devem ir dois pr’ali e dois pr’acolá e o senhor da porta que só tem uma caneta bic vermelha e eu que queria escrever nas mãos a matricula antes que me esqueça, e polícias a passar para trás e para diante, e nem pensar que ele sai às 4 e meia e não dá nem mais um minuto, e ninguém me vê, ninguém me bomdia…devo ter mergulhado para dentro do livro das fascias e afinal não estou aqui…passados os não 45m que tinha para dedicar a este ambiente no estudo das fascias e, eventualmente, para tratar dos documentos da moto…passados esses não minutos, despeço-me também simpaticamente a dizer que tinha gostado muito daquele bocadinho, o outro da porta espanta-se levemente e diz: pois se calhar ainda está demorado. não sei o que estará demorado, já que não existi em policiez naquele lugar…mas venho de volta à casa do cem rindo! tudo menos viver sem aprender!!!!

sofia

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