agora moro na ajuda, para lá da meia laranja, para lá da ponte sobre o tejo, depois de alcântara, perto do mercado da boa hora.

o rio espreita não muito longe mas por estas ruas respira-se bairro mais das orlas da cidade. o marido da porteira quer matá-la mas ela recusa-se a tomar banho mesmo sendo segunda feira, o elevador que dá para quatro não deixa nem entrar duas pessoas se trouxermos a mochila às costas, mesmo assim não está garantido que não pare entre o segundo e o terceiro andar. a velhota que alimenta os gatos todos diz que é uma questão de ir fazendo tentativas, saltitar, por exemplo.

no restaurante ali em cima comes o que querias e ainda trazes para mais dois dias pelo preço que almoças mais para o centro de lisboa, mais ao lado está a tasca do senhor fernando com as suas sopas de couves do quintal e bifanas e desfazer-se em molho. de vez em quando passa um amolador de facas e tesouras, que por acaso até já ouvi passar pela rua dos fanqueiros, e que faz chapéus de chuva com os desenhos virados para dentro…assim é mais bonito, preto por fora e depois com estas pinturas viradas para o abrigo que a gente leva em cima da cabeça…diz que me vai fazer um mas o sr. fernando pisca o olho como quem diz que posso tirar (literalmente) o chapéuzinho da chuva. o meu avô é que dizia muito isso.

da varanda onde fazemos grelhados no verão, passando o cheirinho a fumo aos longos lençóis da vizinha que ondulam cagadelas de pombo, vejo uma horta selvagem onde alguns vizinhos plantam o que querem e quando querem….se for menos romântica e levantar os olhos das couves e das flores vejo uma instalação interminável de pneus e uma mão cheia de barracas.

se tiveres atracada a um poste uma moto ou uma bicicleta novinha (que não é o caso, claro) o mais certo é que vá desaparecendo, ora às peças ora toda de uma vez.

da janela da cozinha vejo as aulas de ginástica da criançada com um instrutor todo pintarolas de óculos escuros, mão no bolso e telemóvel sempre pronto por entre os gritos para saltarem mais ou passarem a bola como deve ser.

parece que há uns domingos por mês em que os da academia recreativa que forma artistas profissionais desfilam pelas ruas, mas nunca assisti a tal espectáculo.

a dona eulália emprestou-nos um pauzinho, que afinal é metade de uma mola, para “calçar” a porta da rua e nos deixar entrar com as coisas pesadas sem estar sempre a lutar contra a fechadura…mas que no fim tínhamos que devolver o pauzinho que afinal é metade de uma mola que lhe faz muita falta.

o senhor afonso lá de baixo do talho vende uns bifes à maneira mais facilmente ao bruno que a mim, enquanto uma mulher de bata não se cala com a quantidade de gente que morreu nestes últimos dias.

os indianos têm fruta portuguesa fresquinha, cerveja mais barata que no supermercado e acham que fachavor é uma linda palavra da nossa terra que se deve ajuntar a cada final de frase, seja ela qual for fachavor.

se for a pé desde aqui, apanhando lá à frente a 24 de julho que segue interminável ao lado do rio, até à casa do cem na baixa lisboeta levo uma hora e 10.

a muni gata delicia-se ao sol, eu danço ao som do claudio ulpiano a falar de espinosa, o bruno toca guitarra lá dentro, o andré fechou-se no quarto com a madalena mas a voz forte passeia pela casa. tudo igual, ligeiramente diferente.

sofia

 

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