acordei com uma sensação esmagadora de cansaço…como se o mundo me pesasse para lá do que podia acompanhar…a pele esborratada, os tecidos a desfazerem-se…andava de volta há uns dias do poema de drummond de andrade “a máquina do mundo” já que a maria filomena molder vinha hoje ao cem falar-pensar junto por essas paisagens.

ter a experiência de caminhar sem ver não ensina a caminhar sem ver, não ensina a ver, não ensina a caminhar…ensina a continuar a começar sem desesperar no desajeito de ser que não se cansa de nos lembrar que a vida está sempre a brotar “o pasto inédito” e que nós humanos nos perdemos nas lamúrias de não ver-tocar esse verdejar pulsante, na ansiedade de querer controlar cada momento, no equívoco de aceitar chaves e códigos como fontes de movimento.

aceitamos viver do lado de lá da peneira, aprisionados por forças que nós próprios alimentamos, e vamos esticando o braço para lá das grades para agarrar o amendoim como quem rodopia em liberdade.

queremos do outro o que ele nos devolve de nós próprios e mesmo assim só se essa maré estiver no nosso espectro de sensações possíveis. queremos do mundo o espelho da nossa incapacidade de ser que justifica a “alucinadez” que nietzche diz ser como os animais nos vêm: “animais alucinados”.

camões já trazia a máquina do mundo nos lusíadas, esse vislumbre de existência vibrante sempre presente e no entanto tão escondida no nosso caminhar diário.

estivemos na rua deixando as pernas escreverem os seus caminhos. o poema lado-a-lado conversando, abanando o cansaço. sei que a minha cegueira não é uma incapacidade de ver mas uma obstrução que me dificulta atravessar, sei que continuo caminhando. a brecha de luz apareceu alinhando-me com as palavras de drummond de andrade sem constringir a dança.

agradeço.

ainda agora a porteira do prédio onde moro veio buscar umas laranjas, sempre com o pé mais dentro do que precisaria e com os olhos furiosamente curiosos a gravar tudo o que conseguiu neste breve momento. deixo-me lamber pela sua coscuvilhice rodopiando em liberdade.

agradeço e continuo.

sofia

 

Advertisements