Saio de casa às 10h da manhã e não encontro ninguém na rua, deve estar todo mundo a trabalhar num banco. Entro num café e de repente parece que estou em Lisboa: no balcão há pasteis de nata, queques e bolos de arroz, a empregada diz bom dia enquanto serve um galão a outro senhor. Eu peço um café e estranho a sensação de encontrar Portugal noutro sítio, volto ao frio da rua sentindo saudades. O dia está cinzento e também hoje está a chover, uma chuva mais miudinha, nem vou abrir o guarda chuva. Os telhados das casas são de pedra escura, pontiagudos, é fácil imagina-los cobertos de neve. Há um rio que corta a cidade, chama-se Pétrusse, escorre num vale fundo e dá muitas curvas. Será que foi o rio a escavar este vale ou o vale já existia e as águas do rio foram lá parar?

Um dia saímos do Centre de Création Choréographique a pé e tentamos nós perder, sem muito sucesso. Em 10 minutos de caminho estamos fora da cidade, no meio da floresta, acompanhando as curvas do rio em direção contraria ao fluir das águas. O ar está carregado de humidade, está frio, caminho na minha solidão acompanhada pelos andares dos outros caminhantes e aos poucos a minha atenção está toda nos sons, o passeio se faz sinfonia. Os ritmos dos passos entram e saem da sincronicidade, as conversas criam melodias, english, french, deutsch, italiano, português, luxembourgish, os cantos dos pássaros, há muitos corvos também, o escorrer das águas do rio no desnível das pedras, o vento…

As árvores estão nuas de folhas e vestidas de musgo verde, tento perceber onde está o norte olhando qual é o lado que mais musgo tem, mas não consigo entender. Fico me perguntando o que aprende um corpo das proximidades e distâncias que vivência ao longo da vida. Qual é a sabedoria de um corpo que se cria próximo da floresta, afastado do mar? Próximo do escorrer de um rio, afastado da fonte? Perto do escorrer diario do trânsito de uma via rapida, afastado do tempo que demora una árvore a crescer?

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