ao amassar um pão coloco a intenção à partir de fora, na superfície do contorno corpo no querer conformar.
mas este querer ocupa a membrana-pele do gesto de tal maneira que isola um dentro de um fora e só pode aparecer o duro. do um contra o outro.

agora, se o pão for também mão e o amassar for um gesto comum, sem “de” “para”, mas o ondular de um movimento que se sova dentro do alguidar com o que ali estiver, sinto o pão à amassar minha mão e nasce outro perceber que sova mesmo o verbo e deixa nascer do amassar a massagem.

este movimento atravessa e leva-me comigo à atravessar (ao ponto de não se entender o que se atravessa) o que pensava ser um limite de corpo. e continuo para além da pele a extensão da atenção-intensão de um gesto comum.
A escuta circula então entre nós, eu e massa, que tilintando no que soa a matéria, se faz na música e no ritmo, comunicação.

deixa-se a massa elevar-se com as horas

para enrolar a regueifa (que é um pão amassado com azeite), faz-se uma lombriga
e desta outras várias lombrigas
deixa-se repousar as lombrigas um instante
e logo pega-se uma a uma bate na farinha e volta, no massagear, a fazê-las crescer

minha mão, que aprendeu o enrolar com a argila, não podia fazer crescer a lombriga, que elástica voltava a encolher
é que com a argila o toque é de superfície, um carinho plástico que pelo liso adentra a conformação

o pão não é de liso, o pão é muscular
é de dentro, das camadas mais próximas do osso, que se sova o gesto.
sova-se o movimento por dentro da mão sentindo-o elevar-se feito massa com fermento até se expandir no empurrar da massa pão.

esticar a regueifa é esse encontro de amor

e fica a pergunta do corpo sovado, à se sovar…
o que podem as mãos que os órgãos não podem?
no mais profundo interior do corpo reside também uma massa que se pode enrolar, esticar, encolher… toda e qualquer musculatura tecido massa pão à sovar sua centralidade

 

 

júlia lá r ama

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