quantos queres? o olho da águia segue lá do alto as movimentações dos viajantes. ajuntar, abrir em 3 lugares, voltar a ajuntar rodar, abrir em outros 3 lugares, ajuntar de novo e voltar a rodar para abrir em outros 3 lugares, ajuntar, respirar, sossegar.

ajuntamos na porta do elevador embaixador que baixa à baixa vindo do castelo de são jorge que afinal fica dentro do pingo doce. aquela diz que a passadeira ali na subida da rua da madalena não serve para poisar os carros e deixar passar as pessoas que ninguém quer travar o carro assim numa subida. o nicolau distribui os papelinhos, a mim calha-me a rua da mouraria junto às escadinhas da saúde como demora 1, o campo das cebolas como demora 2 e o largo do correio mor como demora 3. desço a rua com a amália costureira, a carolina e a cadeira dona lurdes. ficamos calmamente debaixo de um toldo na esquina para o poço do borratém. a escadinhas da saúde são a conversa com a amália. que essas escadas rolantes são a maior aberração e o gasto de dinheiro mais absurdo que já se ouviu falar aqui na zona…mas parece que é invenção antiga, já do tempo do joão soares. e lá está a escadaria toda escavada, à espera da sua nova sina. passa o antónio da rua do capelão com ar enxovalhado de quem não sai muito à rua com a luz do dia. venha daí um abraço e logo à noite por lá passo…o beco da amendoeira tem agora nova tropa de vigias depois do nando ter sido preso. a polícia ía lá muito a casa a dizer que a culpa daquela gentalha não sair do beco era muito nossa que lhes abrimos a porta e ainda damos que comer. mas ó shô guarda então você tem alguém que andou na escola com o seu filho e brincou lá no quintal a pedir-lhe um copo de água e vai dizer que não? vão rodando as caras mas nunca nos faltam ao respeito. são vidas muito extremas! no outro dia uma aluna da costura dá com a miúda de 8 anos filha do outro a descer rumo à praça da figueira com um saco cheio de notas. é uma bébé mas se falas com ela parece mais sabida do que tu. a casa onde viveu a amália até há um ano atrás era o seu palácio desde os 14 anos. ali fui menina, fui mulher, fui mãe, fui nora, fui sogra e fui avó. quando a senhoria nos quis dali para fora não quisemos ceder nem por nada e não nos passava pela cabeça que a advogada fosse fazer tanta asneira e ficar-nos com o dinheiro…recebeu sempre em mãos, sem recibos sem nada…agora os 25 mil euros já fugiram e a nova advogada diz que mais vale fazer de conta que fomos ao casino e perdemos tudo que não há nada que prove que a outra nos roubou…é uma alegria.

segue o manual com as vidas a pulular em cada esquina. de volta ao elevador começa a saída para almoçar. baixa um misto de calmaria e frenesim. as caras sérias saem dos seus postos de trabalho e ajuntam-se em grupinhos para o menu económico com sopa, prato do dia, uma bebida e cafézinho. está aquela chuva miudinha e parece que as risotas e os saltos dos sapatos na calçada se acristalinam.

desço ao campo das cebolas, está tudo muito diferente mas parece que a obra não evoluiu muito. lá está um bocado do muro que fazia parte do cais depois do terramoto, soterrado há tanto tempo junto a tantos outros tesouros. parece ir agora integrar parte do estacionamento subterrâneo que aí vem.

a árvore de cabelos compridos tem agora nova companhia, uma tubagens grossas de cor arroxeada que se ajuntam às outras alaranjadas e aos canos e pedras e pás espalhadas por todo o lado.

frente à casa dos bicos um casal de estrangeiros come uma banana em uníssono. a temperatura baixou muito de repente. voltamos a ajuntar no elevador. o luis da ourivesaria crisólita da rua da prata vem sorridente a sair das bifanas do afonso que afinal é zé e o trata sempre muito bem  que assim que o vê carrega que até escorre. duas bifanas e uma cerveja 5 euros e 10. não dá para acreditar. ao fundo da rua o rio insiste em espreitar por trás das casas.

abro ao largo do correio mor. ando sem pressa, na conversa com a luz que hoje viaja connosco. encurvado sobre um caixote do lixo verde, de casaco comprido cor de mel e gola de pele escura, um morador de rua lê o jornal de perna traçada, envolto em silêncio como quem estivesse na biblioteca mais acolhedora.

aqui a cidade é suave, as árvores emprestam sementes pela calçada toda enquanto conversam em segredo debaixo da terra, entretecendo raízes.

há corpos que trazem a casa na pele.

sofia

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