Hoje é Domingo. Aquele dia onde tipicamente não se trabalha, onde se fica até mais tarde na cama, se “descansa” de uma semana de coisas a fazer, de se ser tocado pelas pessoas que partilham esta viagem que é a vida connosco, pessoas que nos solicitam coisas: relatórios, diligências, atenções, cuidados, carinhos, apoio, amizade, compreensão, avaliação, comparação, ensinamentos, ajuda, escuta… penso em como estas solicitações estão constantemente a ser reagrupadas formando fluxos por onde me prolongo. Estando “a trabalhar” ou não. E em que se deixar de as catalogar em coisas que devo fazer, que quero fazer ou que é preciso que faça – mas antes deixar-me disponível a ser atravessada pelo movimento que a constelação proporciona ao meu corpo escutante, isso permite que se torne visível “um outro universo”. Um universo em que para descrevê-lo não são suficientes as leis económicas que regulam as relações. Em que para o definir não são suficientes as equações matemáticas mais avançadas. Em que para o pensar não são suficientes os postulados filosóficos mais sofisticados. Um universo em que essa tentativa demasiado humana de querer controlar colapsa visivelmente por não poder alinhar-se com as forças que permitem que o corpo atravesse. E só o corpo atravessa.

Esse Domingo, dia de descanso  que tantas tradições trazem na sua sabedoria, mais do que ser o contrapeso de uma vida colapsada poderia ser o acesso a um atravessamento para esse outro Universo. Onde a Vida não se define por uma sucessão de compensações para simular melhor a vida. Onde quem pode fazer essas compensações de forma mais habilidosa, empregando mais meios ou fazendo valer o seu poder tem a fantasia de estar a viver uma vida melhor. Poderia dizer “onde é sempre Domingo”, mas de facto o Domingo só se define mediante a Segunda-feira, e neste universo não há dias da semana. Nada se define mediante a oposição de uma outra coisa. Lá onde o corpo pode ir passam-se fenómenos que só com o corpo se podem co-criar. Não são compensações face a um ideal virtual inalcansável, para onde nos apelam a que nos esforcemos para chegar o mais próximo possível. Lá onde só o corpo pode ir há gestos-acontecimento  aos quais nada sobra e nada falta. Como a Vida.

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