na ponta da caneta as palavras vão brincando e, de vez em quando, documentam clarezas ainda sem materialidade…

nós humanos temos vindo a exercitar bastante o confronto, a reacção, o avançar contra algo que nos constrange a existência. e com certeza essa será sempre uma forma de vida, a colisão. no entanto o universo dos direitos e deveres tende a tonificar os tecidos de guerra num estado de alerta que arrepia os pelos das costas e dificulta outras atenções.

já várias vezes pessoas importantes da política do imediato me disseram que tinha que “baixar a cabeça” ou “ceder às forças maiores” se queria continuar a ser e a fazer o que pratico. há uns anos cheguei a considerar que o facto de a cabeça não baixar era da ordem da subversão e da irreverência de primeira camada. hoje vou entrevendo outras coisas. é que não é nesse universo de subjugantes e subjugados, de colapsos que ditam novas leis e escrevem os tais direitos e deveres que o corpo que vou-vamos sendo, existe.

o exercício diário é ser quem vamos sendo no encontro corpo-mundo. é essa insistência de não esquecer que existem outros alinhamentos possíveis, que o corpo não tem que respirar constrangido, que pulsamos em cada ajuntamento, caminhada, poisio pela cidade de lisboa.

é esse ser-estar-fazer que não se armadilha no medo e na miséria que vibra em qualquer lugar da terra.

somos muito desajeitados, sim, entupimos em sinais e julgamentos e lá resvala a acção para um disparate qualquer. no entanto, no nascer de ser, no ritmo do coração, no tremer dos tímpanos, na temperatura da boca, no arredondar dos olhos, continua a brotar esse corpo que é outro, sempre estrangeiro, sempre a começar..

lá está…pode ser que a escrita depois de escrita se continue a criar a si mesma e nos acompanhe no aprender.

sofia

 

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