o campo das cebolas continua de boca aberta. homens e máquinas e montes de terra e pedras levantadas e pardais e turistas a fotografar a casa dos bicos…tudo convive pacatamente. a escavadora tem uma mão gigante que quase parece terna a escovar a terra de um lado para o outro. por momentos essa grande mão aproxima-se das grades onde me encosto e cumprimenta-me enquanto o homem que conduz a máquina sorri para mim como quem deixa o cão vir lamber as pernas a outro. quando a pausa de almoço aparece o som contínuo das obras silencia-se e os empregados dos restaurantes vêm à porta ouvir os pássaros e o vento…é nessa altura que as pedras e os carrinhos de mão e as máquinas e a terra conversam com os pardais, mudam de lugar, abanam as cores do dia, riem-se da mania que os humanos têm de julgar que são eles que conduzem o barco…

nas ruas que vão desaguar ao campo das cebolas também muitas casas estão despidas, de terra à mostra. aí passeia o cheiro de camadas soterradas, cobertas, escondidas, que agora se vêm à mostra, despudoradamente.

aprendo que quando destapamos lençóis que cobriam paisagens de nós, precisamos deixar que o cheiro a mofo se dissolva e a humidade que se impregnou nessas paisagens volte ao ar que respiramos e cada coisa se adense e se vitalize para poder dançar.

sofia

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