é que esta rota foi a volta ao mercado da ribeira e à tasca da isabelinha na cruz dos poiais e não posso deixar de escrever esta carta de amizade abraçando cada umaum que fomos encontrando ao longo destes anos e que, mesmo depois de uma temporada longa sem nos vermos, nos guardam no coração como quem nunca tivesse interrompido coisa alguma.

o mercado está cada vez mais minado da versão gourmet mas sossegou-me um bocado as indicações de “mercado time out” para um lado e “mercado tradicional” para o outro…nada de novo…mas talvez um tempo de respiro em que as pessoas que fazem do mercado a sua vida há tantos anos possam continuar trazendo os seus legumes e peixe e fruta, nem que seja porque há um dístico que diz que elas existem. lá em cima, separados por plantas, estão a nascer escritórios com candeeiros chiques, cá em baixo a dona preciosa largou a banca porque já não aguentava a perna e a bela das flores parece que vai avançar pelo corredor fora. a sónia do peixe lá estava sentada ao lado da mãe de olhos mais azuis que o azul profundo, dizendo que os filhos estão de saúde e que podemos deixar ali as cadeirinhas que ela vai zelando. a fátima dos legumes continua brilhante de energia, com a sua fala sabedora e calma e olhar atento…diz que na primavera havemos de ir plantar lá para a terra dela, e vamos. a alice dos alhos está mais louca que nunca, diz que eu estou muito mais bonita mas que não vê nada, nem sabe se estou de óculos ou não, e vai-me apalpando as maminhas enquanto fala. a feia da outra peixaria já voltou para o seu corredor depois destes anos de obras e melhorias, continua a dançar com o marido que é professor doutor e a passar o domingo aninhada a ele no sofá lá de casa. no cacau da ribeira comemos a sopa de legumes e conversamos com quem por lá se demorava para descansar de tantas horas de pé.

está tudo correndo no mesmo lençol que sempre esteve, ligações entre pessoas e lugares que não têm ontem nem amanhã.

subimos a são bento ao encontro da isabelinha na sua tasca frente ao albergue. o costa deixou de beber e nunca mais apareceu, o manel dos pavões está hoje muito apanhado da carola, o que só bebe coca cola e fica na rua desde as 8 da manhã sorri-nos com amizade e pede mais um litro de coca cola, só em garrafa de plástico…a isabelinha diz que ele deveria estar num lugar onde fosse tratado, que o problema dele não é só viver na rua…e lá vai esticando as suas pequeninas teias para confortar cada alma desassossegada que por ali passa. o nicolau pergunta se tem sopa e ela divide a dela com ele…só tem vinho e aguardente, o que há para comer é para a mãe acamada no cantinho ali em cima, para o henrique taxista seu marido e, de vez em quando, para ela. entre nós, que nos reconfiguramos ali pela tasca e pela rua, passa a sensação de uma especificidade atmosférica muito própria, familiar, como se a isabelinha e a sua tasca fossem parte das caminhadas de infância de cada umaum de nós, nalgum lugar estranho deste universo quântico.

lisboa bordada de gente na elasticidade de uma proximidade ao minúsculo que nos deixa uma amplitude imensa em corpo.

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