está tempo de chuva e sol, já vi hoje 3 arcos íris, muito pão mole andam as bruxas a fazer…encontro-me com a zulmira no multibanco antes de chegar à rua da mouraria, junto a uma das inúmeras padarias portuguesas com o fado aos gritos e tudo. consegue estar ali tanto tempo a escrevinhar e a errar que acabo por continuar viagem. poisamos agora à porta da junta de freguesia, o felismino está sentado lá dentro a fumar o seu cigarrinho e a nossa querida amália abraça-me com amor. fico à espera que lá vão jantar a casa quando quiserem! e vamos, marcamos também um encontro de costura no cem com almocinho no beco da amendoeira, vai ser bonito.

chega a zulmira a refilar que afinal não conseguiu despachar as coisas no multibanco…pois não parecia muito bem parada aquela operação…e que partiu a omoplata, que o médico até lhe disse que estava impecavelmente partida mas as dores é que não se aguentam. esteve 24 noites sem dormir, só há 3 é que já vai encontrando posição. diz que todos os dias de manhã e de noite faz uns exercícios em tronco nu apoiada a uma mesa que parece da altura da helena sentada na cadeirinha, oscila o braço doente em movimentos pendulares, 5  vezes assim, e outras 5 assim…mas ó zulmira e o teu chico o mês inteiro a dar contigo meia nua a dar ao braço? ai uma mulher depois de certa idade já não tem tesão. e ri-se.

que o casal foi preso por encontrarem droga pela casa toda e o bébé está lá também e nem pode sair com a avó se eles não se portarem bem. e a avó que queria levar uma cadeirinha como a nossa mas não pode, só de plástico é que eles deixam, que pena.

o felismino pergunta pelas fanzines, gosta de ir tendo o que ler. pois já aí vão aparecer, querido felismino.

seguimos para a rua do benformoso, no café o joão e a alice estão juntos agora que é quase hora do almoço. como uma sopa de grão que tem batata e massa e legumes.

a maria josé vem de cor de rosa salpicado entre o lenço e o chapéu de chuva, mete-se com o nicolau sentado à porta do café na cadeira catarina e não se impede de cantar um fadinho por inteiro. sigo com o joão até à porta de casa. que agora se paga para estacionar na rua do benformoso, que gostava que viessemos dançar mais vezes, que vai descansar um bocadinho e já desce e espera ver-nos quando voltar. enquanto desço vários homens se agarram aos calcanhares para ajustar os sapatos, acabou a reza na mesquita.

é muito diferente a atmosfera do café quando está só a alice ou quando está só o joão. há pouco era uma mão cheia de homens a confirmar que aquele era o melhor café das redondezas, não fosse ele ser do norte, e agora é uma ramo de mulheres de volta das receitas. a alice já nem fazia arroz doce por causa do tempo que tinha que levar a mexer aquilo sem poder estender roupa nem nada mas agora com a bimbi que mexe tudo sózinha já voltou à doçaria.

a rua é uma cobra ondulante, às vezes até parece que as curvas se invertem. quando chegámos parecia ter uma sonoridade aguda e agora engraveceu e tornou-se mais ligeira. as pedras brilham até ofuscar nos reflexos da água que corre.

é a própria demora que ensina a demorar.

a rua vai desabrochando, contando histórias. sinto as oscilações do próprio sentir. nada de palpável, uma sensação de camadas de entendimento, dobras do tempo.

chove outra vez mas ali à frente o sol passa através da esquina.

sofia

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