Estou em Milano esta noite, na casa de alguém que não conheço, no centro da cidade. Olho pela janela e vejo a cúpula da Basílica di San Lorenzo. Nunca morei no centro da cidade, e è engraçado reparar como tudo pareça familiar sem que eu o conheça de verdade. Quando morei aqui, as minhas casas sempre ficavam fora da circonvallazione esterna, em prédios construídos depois da segunda guerra mundial, nos anos do boom económico, e agora estou dentro da cerchia dei Navigli, na cidade medieval. Sempre vi o centro como um lugar de passagem, um lugar por onde cortar caminho quando não queria dar a volta. Esta noite vou ficar aqui, e apeteceu-me escrever, escutar corpo-cidade a partir do quinto andar deste prédio. Há muito silêncio e sossego, uma calma que me parece bonita. De vez em quando oiço a água correr nas canalizações, alguém deve estar a lavar a louça no apartamento ao lado. De vez em quando ouço um carro, mas tudo parece muito longe. Tenho andado muito pela cidade, percorrendo os caminhos para chegar aos lugares onde preciso ir em vez que andar de transporte. Entender as distâncias no corpo, estas distâncias que a gente costuma percorrer de metropolitana, ou de tram, com pressa de chegar. Tomar o tempo para chegar, entender em caminho, por em relação lugares da cidade entre os quais tinha vários gaps. Está muito frio nas ruas, e muito calor nas casas. Os meus lábios racham e fico com a cara tão gelada que já não sinto nada, devo estar o tempo todo a fazer caretas e a ficar com o nariz vermelho sem reparar. O frigorífico retomou a sua música, desde aqui parece a coisa mais barulhenta da cidade inteira, e está completamente vazio. Ando pela cidade observando as cores dos tijolos, não há azulejos aqui, e as formas das árvores completamente nuas. Lisboa anda sempre comigo, a memória viva do azul do céu e das  ruas íngremes e de mil e mais uma coisa. Milano è uma cidade plana, e tem eléctricos cor de laranja. Não são eléctricos, sono tram, mas não os ouço desde aqui, nem agora que o frigorífico parou com as suas queixas.
valentina
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